sábado, 1 de julho de 2017

ÊXODO (SHEMÔT = NOMES)


O livro do Gênese (Bereshit, No Princípio, em hebraico), representa, simbolicamente, a "criação" (emanação), a "saída" dos seres de Deus, a "queda" e os caminhos "longe" de Deus. O livro do Êxodo (Shemôt, Nomes, em hebraico), por sua vez, representa, simbolicamente, o caminho de “retorno” a Deus, a saída do exílio.

Em primeiro lugar, para entendermos o verdadeiro sentido do texto, devemos ter sempre em mente que, conforme nos ensina Rav Mario Meir (Academia de Cabala), o “Egito e Israel não são pontos geográficos no planeta, mas dimensões espirituais - é importante que isso fique bem claro. Podemos estar em qualquer um dos dois neste exato momento. Tudo vai depender da forma com que lidamos com as coisas ao nosso redor, do modelo de vida que adotamos. O estado de exílio é um estado de enfermidade espiritual, a nossa incapacidade de receber a Shechiná (a Presença Divina). Saímos do exílio ao aprender a receber a Luz Espiritual em nossas vidas, ao perceber a unidade em todas as coisas.”

O Livro do Êxodo nos narra que Moisés libertou o povo do jugo egípcio. Êxodo quer dizer “saída” nas línguas greco-latinas. Essa libertação ("saída") não pode ser entendida como algo que ocorreu no passado. O processo de libertação é atemporal. Cada ser humano, através da evolução, vai se desligando do seu "Egito" interior, ou seja, de uma vida egoísta e inferior. Com o tempo e crescimento, depois de uma vida escrava das próprias inferioridades, o ser humano chega à "Israel", à "Canaan", que simboliza uma vida elevada, evoluída e plena de Luz.

Esse processo é simbolizado e narrado, como nos diz Z'ev ben Shimon Halevi, numa “jornada através do deserto que duraria 40 anos, ou um ciclo completo de experiência física, psicológica, espiritual e Divina, na qual os israelitas seriam submetidos a uma total transformação. (…) É o progresso do peregrino, de cada homem. A jornada, desde o começo dos tempos, através de todos os mundos e dos seus estágios (…). (Cabala Tolediana)

E o que é ou significa a condição humana de servidão?  É uma vida onde os únicos objetivos são: comer, trabalhar, dormir, procriar e divertir-se. E mesmo quando procura uma “religião” é somente para obtenção de benefícios pessoais e voltados para a vida material.

Para sair do seu "Egito pessoal" o homem deve, depois de anos de escravidão e servidão a si mesmo como ego, perceber primeiramente que estava vivendo como um mineral, um vegetal e um animal. Precisa humanizar-se, equilibrar-se, deixar de ser reativo em seu comportamento e buscar o significado da vida. Somente assim cada um conseguirá deixar de ser um escravo e cruzar as "águas do Mar Vermelho" pessoal, e rumar à "Canaan", à "Terra Prometida" do Espírito liberto, consciente, evoluído e proativo. Isso se processa individualmente e coletivamente. É a lei da evolução.

O verdadeiro crescimento e evolução espiritual é muito diferente de simplesmente ter afinidade ou gostar de uma tradição espiritual qualquer, de seguir uma cartilha determinada, ou comodamente ler lindas mensagens. Sabe-se que nenhum instrutor desperdiçará seu tempo com pessoas sem um objetivo claro na vida espiritual. Por isso nós nos autoqualificamos ou nós nos autodesqualificamos para a caminhada espiritual. Mas tudo em seu tempo.

Se quisermos sair da escravidão e desenvolvermos nossas potencialidades devemos assumir essa tarefa com consciência, disciplina e esforço. Muito lixo psicológico, mágoas, ressentimentos, apegos e tantas coisas da escravidão do "Egito" deverão ser deixadas para trás. O nosso “êxodo” pessoal deverá ser conquistado depois de muita servidão. Pois é na própria servidão que nos conscientizamos, com o passar do tempo e amadurecimento, que estamos seguindo caminhos obscuros e tortuosos.

Possamos ter olhos abertos ao ler as entrelinhas do Livro do Êxodo e, a partir de suas histórias simbólicas, míticas e ilustrativas, avaliar a que grau estamos na nossa servidão. Possamos ainda reavaliar se a nossa caminhada espiritual está sendo apenas o seguir uma tradição ou escola, enganados pelo nosso “oponente” interior (ego), que nos faz sentir satisfeitos (acomodados dentro da ilusão), ou estamos realmente conscientes e preparados para uma verdadeira e árdua caminhada e despertar.





Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)






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A VISÃO DE QUE PARA IMPLANTAR O "PROGRESSO" É NECESSÁRIO TRANSFORMAR OU DESTRUIR UMA CULTURA


Este pequeno texto exemplifica, baseado na história da África, o que publiquei no dia 12/06/2017, sobre missões, colonizações e síntese, no texto "Visão de Síntese".

Tanto no cristianismo quanto no islamismo (eXotéricos) encontramos a visão de transformação ou destruição de uma cultura ou religião para que seja implantada uma outra. No lado eSotérico destas religiões não há esse interesse, é obvio, porque a motivação é essencialmente espiritual.

O islamismo, que penetrou na África a partir dos tempos pré-coloniais, foi implantando sua cultura e misturando-se às religiões nativas de várias áreas do continente. Palavras, conceitos e tradições foram sendo incorporados em meio dos diversos povos que mantinham contato.

Com Omar, um dos responsáveis pela expansão do Estado árabe-muçulmano, o islão entra na África, pelo Egito. A Guerra "Santa" leva ao domínio sucessivo de diversos reinos, culturas e territórios. Ainda que a ideia fosse de conquista, era comum que as populações dominadas pudessem também manter ainda suas propriedades, costumes e administração. Um exemplo é dos cristãos coptas do Egito. Em troca pelas liberdades essas populações pagavam um imposto. Porém, tais liberdades não impediam a implantação de novas culturas e de misturas culturais e religiosas.

De forma semelhante, o cristianismo também deixou a sua marca na África, desde os tempos pré-coloniais e, com mais vigor, nos tempos coloniais.

Cabe aqui mencionar o poderoso movimento missionário cristão, a partir do ano 1840. Esses missionários foram penetrando no continente africano, ao contrário da penetração cristã colonial que concentrou-se na costa africana. Tal movimento missionário foi decisivo às lutas de conquista de territórios.

Esses missionários eram verdadeiros convictos e defensores da cultura ocidental como superior e civilizatória. Desejavam ver sua cultura substituindo a cultura africana. Praticamente iam destruindo a base das tradições e crenças africanas que estava alicerçada na unidade entre religião e vida. Embora houvesse uma reação africana a essa cultura ocidental, que lhes era estranha, as conversões e a introdução de costumes foram ganhando terreno.

Enfim, percebe-se que em qualquer tempo ou cultura, a ideia de levar "progresso", "cultura" e "religião" é uma constante. Cada povo e cultura vê a si mesmo, com as suas tradições, como os melhores e ainda imbuídos e destinados à missão de conquistar e fazer "progredir" outros povos.

A história nos mostra que em qualquer época é comum que missão, comércio, política e ideia de progresso ocorram simultaneamente, ou seja, fanatismo, presunção, prepotência, ignorância, lucro e poder marcam qualquer tempo histórico.

Para mais detalhes sugiro a leitura dos seguintes textos:

- "A Religião na África durante a Época Colonial", Kofi Asare Opoku

- "Expanción del Islan", Pierre Bertaux




                                               
Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)





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PROBLEMAS INFANTIS E JUVENIS (CAUSAS E POSSÍVEIS SOLUÇÕES)


A criança é plenamente acessível aos verdadeiros e genuínos valores, mas também a falsos e ilusórios valores, é óbvio. Aqui temos, assim, o princípio da responsabilidade de cada um no seu cuidado e trato em relação a infância e a juventude.

As crianças, em praticamente todas as épocas, sempre foram familiarizadas com o crime desde a mais tenra idade. E como toda a ideia tende a tornar-se em ato, são, os adultos, altamente responsáveis por expô-las ao contato com imagens e ideias de violência. Temos, portanto, uma das causas ou estímulos à violência infantil com suas consequências danosas em todas as idades.

Por outro lado, encontramos causas também dentro do lar. Nele pode ocorrer o excesso de cuidado, o vício da bebida, a falta de harmonia, a falta de carinho, a falta de diálogo, a violência e muitos outros problemas. A criança percebe e tudo registra; começa, então, a praticar atos e modelos de vida como consequência direta. A falta de responsabilidade e consciência dos pais pode gerar e estimular atos sérios, graves e até incorrigíveis durante uma existência toda, gerando, inclusive, fatores que irão influenciar uma futura encarnação.

Temos ainda a problemática da educação errônea, mal dirigida e mal intencionada que leva, também, a infância e a juventude, a efeitos danosos. A maioria das escolas apenas "empurram" teorias diversas, por força de imposição curricular e doutrinária da política social e econômica vigente. O que é útil, saudável e que poderia oportunizar a expressão nata e sadia das crianças e jovens ficam em segundo plano. A ideia de busca de uma finalidade e objetivo em todos os sentidos da vida estão, geralmente, sufocados por outros "interesses", restando-lhes o vazio existencial.

Estatutos, princípios, declarações de direitos da criança e dos adolescentes são criados com uma finalidade, porém desvirtuados e utilizados para fins de encobrir teorias sociais de matizes políticas. Pretender reformar e proteger a infância e a juventude somente submetendo-as e constrangendo-as está claro que é ineficaz; entretanto não podemos nos esquecer de que o extremo oposto é também danoso.

Podemos considerar que o êxito, ou o caminho para o êxito, está possivelmente na apresentação constante de certas verdades e valores convincentes, lógicos, comprovados e esperançosos.

Deve-se, em primeiro lugar, procurar compreender o mundo infanto-juvenil da melhor e mais profunda maneira, e levar em conta suas dificuldades e inexperiências para que se possa tentar resolver seus problemas, ou melhor, propiciar-lhes maneiras e incentivos para que possam desfrutar de uma vida mais plena e proveitosa.

A seguir, deve-se considerar a participação ativa da criança e do jovem aluno como essencial à sua educação. É fundamental, do ponto de vista da educação construtivista, que o aluno seja o agente da sua própria formação, e que o professor assuma o papel de motivador e orientador, superando a função e figura de um mero repassador de conteúdos. Infelizmente, o que se observa no construtivismo, ainda muito manchado de políticas e interesses, é que tem se prestado apenas de ser um pano de fundo para um alto grau de permissividade e falta de responsabilidade (pais, alunos e escola).

Todas as épocas possuem seus problemas. Hoje fala-se muito em crise de ética e meio ambiente. Contudo, a partir dessa crise, estamos vivendo o nascimento de novos valores e de uma consciência mais global, ecológica e social. E a criança deve ser estimulada e agregada na participação desse novo contexto. Estimulá-las desde cedo às praticas sociais e ecológicas sadias e tornar conhecidos os exemplos positivos da experiência humana será algo a ser cada vez mais exercido.

Os problemas infantis e juvenis não serão solucionados se lhes fecharmos os olhos às situações e desafios da vida cotidiana. É dentro desse contexto que as metas e objetivos deveriam ser enfatizados e trabalhados.

Toda a problemática continuará e se tornará mais grave se continuarmos o enfoque atual da civilização, ou seja, o existir para satisfazer apenas as "necessidades" humanas materiais.

Não se observa outro caminho ou saída a não ser que o homem lute para realizar sua imagem real, interior, arquetípica, sua própria totalidade. E a educação e a família deveriam enfatizar desde o início a preparação do ser humano, infância e juventude, para esse ideal. Tudo deveria ser organizado de maneira que a sociedade humana se subordine à meta primordial de garantir ao ser humano a sua autorrealização de acordo com a sua natureza interior, suas aptidões e tendências. Portanto, a capacidade de questionar, discutir, discernir e a responsabilidade social deveriam ser assumidas pelos adultos e estimuladas nos jovens.

A partir dessas ideias básicas, pode-se alimentar a esperança de um futuro melhor e de que os problemas sejam resolvidos da melhor maneira possível. E como as crianças serão os futuros pais, mestres e professores, poderiam transmitir e saber lidar mais profundamente e sabiamente com as bases e causas dos problemas que advirão em sua caminhada. Saberiam enfrentar todas as dificuldades e crises que fazem parte da natureza humana e que são necessárias como ferramentas de evolução, autorrealização e conscientização.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)





Fonte da Gravura:
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Referências e sugestões bibliográficas:

- Educação na Nova Era, de Alice A. Bailey
- O Senso de Responsabilidade na Sociedade, de Torkom Saraydarian
- A Psicologia da Cooperação e da Consciência Grupal, de Torkom Saraydarian
- Ter ou Ser, de Erich Fromm