domingo, 3 de dezembro de 2017

TZIMTZUM


Tzimtzum (da Luz Infinita) significa, aproximadamente: contração, retração, esvaziamento, recuamento, ocultamento.

É o "recuo" voluntário da Divindade, para que um mundo finito viesse a existir, através do processo de emanação.

Como Deus é Infinito, sem o Tzimtzum não haveria uma "área vazia" na qual se pudesse produzir a estrutura espaço-tempo de uma criação.

Para a cabala luriânica, o Tzimtzum inicial, e os atos subsequentes de Tzimtzum que ocorrem em cada estágio da criação geram as Sefirot restritivas do "lado esquerdo" e, no fim, as forças do "sitrá achará" ("o outro lado", "as forças oponentes").

Embora seja uma parte necessária da criação, a autocontração divina faz surgir um mundo carente de retificação (Tikun/Karma), devido ao choque entre as forças restritivas e o transbordante amor divino. Esse choque expressa-se na imagem da "quebra dos vasos" (Shevirat haKelim) que deveriam conter toda a Luz Divina.

O Tzimtzum explica como um Deus infinito poderia dar existência a algo finito.

Metaforicamente, é Deus "ocultando-se" na Sua Criação, para que os mundos e os seres pudessem ter o senso de sua própria "separação" de Deus. Se Ele não estivesse "escondido" (oculto), nada mais poderia ser percebido por causa de Sua Magnitude e Luz Absoluta.

Entretanto, a existência dos mundos e dos seres "independentes" é só na aparência, e a alteridade de Deus é uma ilusão, pois nada pode existir que não contenha a Sua infinitude.

O mundo, portanto, existe na intimidade divina e se reveste da natureza divina que apenas está oculta.

Não há um Deus separado, uma criação do "nada"; tudo é um processo monístico (monismo) que se apresenta aos nossos olhos míopes como panteísmo, politeísmo e monoteísmo.

A divindade é transcendente sem deixar de ser imanente.

Aceitar algo fora de Deus é o mesmo que crer numa limitação de Deus; o Absoluto não pode estar fora de nada, pois, por este fato, deixaria de ser Absoluto.




Prof. Hermes Edgar Machado Jr. (Issarrar Ben Kanaan)





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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

BIG-BANG - TZIMTZUM - EVOLUÇÃO

“O 'Princípio' ampliou-se e fez um palácio para si mesmo, para glória e louvor. Ali semeou a semente sagrada (…) Assim que a semente entrou, o palácio encheu-se de luz. Dessa luz jorraram outras luzes, centelhas voando pelos portais e dando vida a tudo.” (Sefer haZohar)

A teoria do big-bang explica, em simples palavras, que havia, no princípio, um ponto ou semente de energia de proporções menores que um próton. Ao seu redor havia o “nada”. Num dado momento, “no princípio”, esse ponto explodiu lançando para todos os lados uma carga de energia que, à medida que ia se afastando do centro, formava os universos e os mundos.

Assim sendo, o “Nada Absoluto”, o “Ayin”, o “Zero”, o Deus Transcendente dá origem ao “Ayin Sof”, o “Um”, o Infinito, o “Tudo Absoluto”, o Deus Imanente. Na cabala, "Nada" e "Tudo" significam o mesmo. Porém, “Deus desejou ver Deus”, e esse desejo ou vontade tornou-se Luz, o “Ayn Sof Or”, a Luz Infinita. E “Deus desejando ver Deus” desencadeou uma “separação não separada”, de modo a Deus poder “olhar” para Deus. Isso foi realizado por uma “concentração” (Tzimtzum) no “Tudo Absoluto”, tendo como finalidade gerar um “lugar” (Makom), um “espelho”, a existência manifesta, um “lugar esvaziado” para a futura “existência existir”, lá “no começo”, “no princípio”. Na verdade, Deus não retirou-se, mas ocultou-se (Tzimtzum) para que o finito pudesse existir. 

E do lugar oculto, o "Ayin Sof Or" enviou ou penetrou um Raio de Luz de sua Vontade (Kav), conhecido como “Ehyeh” (Eu Sou). E dessa emissão do Kav deu-se a origem de toda a "criação", manifestando-se em Dez Emanações Divinas (as Sefirôt da Árvore da Vida). O Raio de Luz, o Eu Sou, então, fez sua trajetória até o centro do “lugar esvaziado para a existência”, e formou, em sua trajetória, a grande Árvore da Vida (Etz Chaim), ou seja, o Eu Sou manifestando-se como Kêter (a Coroa, a Vontade), Chochmá (a Sabedoria), Biná (a Inteligência), Chêssed (o Amor, a Misericórdia), Gvurá (o Rigor, a Força, o Julgamento), Tifêret ( a Beleza, o Coração do Céu), Nêtzach (a Eternidade, a Duração, a Vitória), Hod (o Explendor, a Glória, a Reverberação), Yêssod (o Fundamento, a Base, a Sexualidade) e Malchút (o Reino, a Receptividade). A partir de então, surge o Adam  haKadmon (o ser arquétipo, “criado à imagem e semelhança de Deus”) que contém a Árvore da Vida e é contido na Árvore da Vida.

Em Malchút, o Eu Sou manifesta-se como Shechiná, a Divina Presença Eu Sou, que está no íntimo de toda a manifestação (mundos e seres). Na maçonaria e na rosacruz, dentre outras ordens, a Shechiná está representada no centro do templo, como um pequeno altar triangular, sustentando três velas (luzes) e o Livro da Lei, dentre outros objetos ritualísticos. Representa, simbolicamente, a Presença de Deus (Eu Sou) no mundo, no templo e em cada criatura.

A "criação" "distanciou-se" do Criador. Entenda-se que a "criação" é o próprio Criador “distanciado” de si mesmo (“Deus desejou ver-se a si mesmo”), pois nada pode existir fora do Absoluto e Infinito, senão o Absoluto e Infinito deixaria de ser o Absoluto e Infinito. Tendo-se distanciado, necessitou de um caminho de retorno, depois de cumprir o caminho de “descida”. Temos, então, o longo caminho de “subida”. Caminho este que todos os seres e mundos percorrem. É Deus “retornando” a si mesmo.

Portanto, nesse afastamento e retorno, encontra-se o possível segredo da existência: o aperfeiçoamento dos seres e dos mundos (a evolução, o despertar), o aperfeiçoamento de Adam haKadmon, que é a própria imagem de Deus. Em outra palavras, como escreveu o cabalista Warren Kenton, “o segredo da Existência é um espelho no qual o homem reflete a Imagem do Divino, para que, assim, Deus possa contemplar Deus.

Numa rápida e superficial visão e omitindo muitos detalhes e pormenores, procurei mostrar que a "Criação" Divina (emanação) não é obra do acaso. Há um propósito perfeito e definido, embora não nos seja possível, neste nosso atual grau evolutivo, de o sabermos em termos claros, precisos e definitivos. Tudo constitui-se, na verdade, numa viagem da inconsciência à consciência, e desta à uma super consciência. Muitas dificuldades a vencer. “Muita dor propulsionando a evolução, mas a própria evolução anulando progressivamente a dor”, como disse o filósofo Pietro Ubaldi.

Dukkha, Samsara, Nirvana e as Quatro Nobres Verdades do budismo nos mostram muito similarmente o processo do Tzimtzum da cabala, em outras palavras.



Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)




Fonte da Gravura: https://pixabay.com/en/big-bang-explosion-pop-fireball-422305/




Referências e sugestões bibliográficas:

-“Adão e a Árvore Kabalística”, Z'ev Ben Shimon Halevi
-“Universo Cabalístico”, Z'ev bem Shimon Halevi
-“A Grande Síntese”, Pietro Ubaldi
-“A Cabala”, Rabino Alexandre Safran
-“A Cabala”, Henry Serouya
-“A Rosa de Treze Pétalas”, Rabino Adin Even Ysrael
-“As 3 Dimensões da Kabalá”, Rav Chaim David Zukerwar
-“Cabala: Novas Perspectivas”, Prof. Moshe Idel

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

ESOTERISMO BÍBLICO - ALEGORIA DO PATRIARCA JACÓ (Gênesis, 27 a 50)

“A fé cega e a crença são parasitas que só florescem no estéril campo da ignorância e da indolência.” (Carlos Brandt)

As Escrituras Sagradas, de todas as tradições, revelam verdades eternas, atemporais, tais como as leis do ser, as experiências místicas interiores e a evolução dos mundos e seres. O mito, os símbolos e as histórias são panos de fundo para mostrar, aos que têm olhos e condições evolutivas de ver além da “letra morta”, operações do Altíssimo na natureza, universos e seres.  Mostram as operações e experiências místicas e esotéricas do gênero humano em geral, o despertar gradual da consciência humana e as grandes iniciações do homem e da humanidade.

O Antigo testamento, em questão neste artigo, trata com riqueza simbólica e mitológica diversas experiências que o homem, os homens, as nações, o planeta e os universos passaram, passam e passarão no que se refere à evolução.

Uma das passagens bíblicas se refere ao Patriarca Jacó. Na longa vida de Jacó, a Bíblia narra a lenta e penosa transformação de uma pessoa desonesta e egoísta num homem sagrado de Deus, quando Jacó se torna Israel. A história ilustra, na verdade, os três níveis da humanidade: Esaú representa o nível físico, instintivo e emocional; Jacó e Labão o nível mental; e Israel o nível espiritual. Do ponto de vista esotérico, esses nomes representam estágios no caminho da iniciação espiritual. (conf. Baughman)

Jacó e Esaú, filhos de Isaac e Rebeca, não deram no início da vida nenhuma indicação de estarem à altura da herança que haviam recebido. A diferença entre esses gêmeos era evidente desde o nascimento, quando Jacó, “o que suplanta”, nasceu segurando o calcanhar de Esaú, o “ruivo”. (conf. Fillmore) O Criador havia explicado a Rebeca que duas nações estavam em seu ventre, e que o mais velho iria servir ao mais novo. Esaú iria tornar-se pai dos Edomitas, um povo que habitaria o deserto ao sul do Mar Morto, em geral subserviente aos descendentes de Israel (Jacó), na parte norte.

A traição com que Jacó trapaceou Esaú, tirando-lhe seu direito de primogênito e, mais tarde, a bênção paterna, é descrita nessa famosa história do Velho Testamento. Como nas histórias anteriores (Abel e Set suplantaram Caim; Sem suplantou Caim e Jafé; Abraão tomou a frente com a morte do irmão Harã; Isaac era o legítimo herdeiro, em vez de Ismael), eis aqui uma história em que o “fraudulento” e “mentiroso” Jacó rouba a herança de Esaú. Parece ser uma lei da eugenia espiritual que aqueles nascidos mais tarde sejam mais evoluídos e, portanto, mais qualificados para promover a evolução do seu povo.

A história de Esaú e Jacó tem certas semelhanças com a história do “filho pródigo” das Escrituras Cristãs. Ou seja, o prazer proporcionado pela vida sensorial dura até que o vazio e a falta de significado dessas experiências forcem a alma a "dar as costas" para o que é material e voltar-se para o espiritual. Esaú é um exemplo de pessoa que se concentra principalmente no plano físico da existência e que, sendo uma pessoa cuja mente está voltada para as coisas materiais, teria de servir a Jacó, uma pessoa mais voltada para as coisas espirituais, até evoluir para um nível mais espiritualizado. O corpo e as emoções não devem acaso servir à mente e à alma? (conf. Heline)

Os principais acontecimentos na vida de Jacó representam aventuras na ascensão da consciência, passos ilustrativos da iniciação ao longo do caminho espiritual. A primeira experiência aconteceu quando Jacó estava correndo rumo ao norte, aparentemente para procurar uma esposa em Harã mas, na realidade, fugindo da ira assassina do irmão Esaú. Cheio de medo e de culpa com a enormidade dos seus pecados e aflito devido ao exílio forçado, Jacó pegou no sono e teve a sua famosa visão de uma “Escada” que conduzia ao céu, com anjos subindo e descendo. Estava assustado, mas sabia que o Senhor o estava guiando e zelando. Jacó despejou óleo em seu travesseiro de pedra e consagrou-o a Deus, prometendo-Lhe um décimo de tudo o que ganhasse.

Jacó estava fugindo de Berseba, um lugar de consagração, para as montanhas de Harã, um lugar de consciência elevada. No simbolismo das Escrituras Sagradas, monte e montanha sempre simbolizam uma elevação de consciência. Seu sono significava que os sentidos exteriores estavam amortecidos; seu travesseiro de pedra tem paralelo com a sabedoria da “pedra filosofal” dos alquimistas. Os anjos subindo e descendo a escada representam os níveis da consciência, de Deus até a humanidade.

De um ponto de vista cósmico, a escada revela todo o plano de evolução que o Grande Arquiteto (o Deus de nossos corações) projetou. As almas "descem" do céu para a materialidade e, então, "sobem" novamente. A “Terra Prometida” a Jacó significa um corpo regenerado e purificado. O ato de despejar óleo sobre a pedra indica a sabedoria e compreensão obtidas com essa visão, um paralelo com o “desbastar da pedra bruta”, ou com a “reforma íntima”.

Ao continuar sua viagem para o leste, Jacó encontrou três rebanhos de ovelhas deitados ao lado de um poço. Os rebanhos não podiam beber água, pois havia uma grande pedra na boca do poço. O “leste”, na filosofia esotérica, é associado à fonte de luz. (conf. Heline) A tarefa de Jacó era remover a pedra da ignorância, do preconceito e da superstição, tirando-a do poço da verdade viva, para que ele pudesse beber das águas da vida. Aqui ele encontrou sua prima Raquel, que viera para dar água às ovelhas do pai. Raquel representa a alma, a divindade feminina, alimentando outras almas (rebanhos de ovelhas). A busca do ser humano pela alma é ilustrada pelos 14 anos de luta de Jacó para tomar Raquel por esposa. Somente quando coordenarmos nossa personalidade (é uma luta constante) poderemos ouvir a alma e beber das suas águas (sabedoria).

Na casa de seu tio Labão, em Harã, Jacó encontrou alguém à sua altura em matéria de astúcia. Uma interpretação literal do Gênesis indicaria que os dois aplicaram truques desleais um ao outro durante 21 anos. Jacó certamente foi o perdedor nas disputas pelas noivas Lia e Raquel, mas levou a melhor sobre Labão na disputa pela riqueza representada pelos rebanhos de ovelhas. O nome Labão significa “branco” ou “brilhante” (conf. Heline), indicando que ele era mestre espiritual de Jacó. Jacó levou sete anos para receber a mão de Lia, a irmã mais velha, menos favorecida e menos evoluída. Os nossos primeiros anos no caminho espiritual são longos, penosos e difíceis. Foram necessários mais sete anos de trabalho duro para ganhar a qualidade de alma personificada por Raquel, a irmã mais nova. (conf. Fillmore) A maturidade espiritual não vem da noite para o dia, exige muita reforma íntima e conhecimento de si mesmo.

Os dez filhos e a filha de Jacó com Lia e com sua serva (Bala) e também com a serva de Raquel (Zelfa) representam os atributos da personalidade duramente adquiridos. Estas eram as qualidades a serem conquistadas antes que a alma (casamento com Raquel) pudesse frutificar. (conf. Heline) Somente depois que Jacó conquistou uma personalidade plenamente integrada (psicossíntese) é que Raquel finalmente deu à luz ao filho José, “aquele que tira a luz da escuridão”. Depois que os níveis espirituais são alcançados, eles precisam ser expressos na vida cotidiana. “A fé sem obras é morta.” Jacó, então, tinha trabalhado para Labão durante 21 anos. Era chegado o momento de retornar à sua própria terra levando a luz.

Depois de alguns acertos de contas com Labão, todos de significado espiritual, Jacó, suas esposas, filhos e grandes rebanhos foram para Canaã. Entretanto, ele soube que Esaú, com 400 homens, estava vindo ao seu encontro. Jacó ficou assustado e rezou a Deus pedindo ajuda. Essa história nos diz que Jacó ainda tinha algumas forças rebeldes na sua natureza, as quais ele tentou expiar mandando presentes para Esaú.

Em outra ocasião, enquanto dormia, Jacó teve uma nova visão, na qual lutava a noite toda com alguém até que, finalmente, descobriu que não somente não conseguia dominá-lo, como também descobriu o caráter sobrenatural do seu adversário, um anjo de Deus. Após essa descoberta passou a exigir-lhe uma bênção. O adversário, visto como um anjo, deslocou, então, a articulação da coxa de Jacó, fazendo com que a luta parasse. Isso indica sua luta interior com as sombrias forças interiores, com aquelas lições de vida que ainda estavam por ser aprendidas. Ao vencer seu desesperado desafio, ele teve uma visão interior que descreveu como “ver a face de Deus”. Já ao romper do dia, significando um novo nascimento e um novo nome, Jacó ganhou o nome de Israel por ter sido “forte contra Deus e contra os homens.” Tendo visto e vencido o anjo do Senhor, Jacó estava espiritualmente apto para enfrentar qualquer circunstância adversa que a vida lhe impusesse e para agir com amor e de forma correta.

Entretanto, ele foi suficientemente esperto em proceder com cautela no seu encontro com Esaú, que poderia ainda estar ressentido. Aqui a Bíblia oferece uma linda descrição de um rito de iniciação em que o mal é transmutado em bem. Nesse encontro, Jacó “viu Deus” em Esaú e abraçou-o com ternura e compaixão. Esaú também tinha crescido espiritualmente e deu as boas-vindas a Jacó sem nenhum resquício de ressentimento pelos antigos maus-tratos.

Nos anos seguintes, Jacó teve outras oportunidades para pôr à prova e aperfeiçoar suas qualidades espirituais, até que, finalmente, sua comunhão com os mundos superiores foi consumada. Isso descreve aquilo que conhecemos hoje como a “continuidade de consciência”. Agora, a fusão do espírito com a alma, ou seja, de Jacó com Raquel, estava concluída. Sua união foi abençoada com o nascimento do décimo segundo e último filho, Benjamim. Nos 12 filhos de Jacó vemos as características do Ser divino "dentro" dos seres humanos.

Em virtude da conversão espiritual vivida por Jacó, que, assim, ganhou o nome de Israel, a nação de Israel nasceu espiritualmente. (conf. Bock) A família de Jacó estava mudando de Harã, na Babilônia, para o local conhecido hoje como Palestina, a terra natal de seu pai Isaac, que herdara de Abraão. Com o nascimento do décimo segundo filho, Benjamim, a família tornou-se, finalmente, uma nação com sólidas raízes. Graças à purificação de sua vida religiosa e à força de caráter que os capacitou a responder aos desafios da vida com crescimento espiritual, eles desenvolveram as faculdades mentais e o senso de responsabilidade pessoal, que chegaram até eles juntamente com um influxo de energia da alma.

Os três valorosos patriarcas (Abraão, Isaac e Jacó) seriam seguidos por um quarto grande líder, José. Ele foi o primogênito de Raquel e Jacó, um homem predestinado e o salvador da raça hebraica em épocas difíceis que estavam por vir. Mas isso é tema para outro artigo.

Como me referi no início deste artigo, nunca podemos deixar de entender o fato de que os “personagens” bíblicos, com raras exceções, nunca existiram; são somente símbolos e arquétipos, comum a todas as tradições do mundo. A essência e a mensagem são as mesmas; o que muda é o cenário, a representação. São personificações de atitudes e da grande caminhada dos mundos, povos e de cada ser humano individualmente, caminhando das trevas à luz, do profano ao iniciado.

Que isso possa nos inspirar na nossa senda evolutiva, fazendo-nos compreender que a caminhada é longa e árdua; muitas vidas, muita ação e reação, encontros e desencontros e muita reforma interior são as exigências para sermos “fortes até perante Deus”, e retornarmos ao “paraíso perdido”, ou seja, a mundos superiores de muita luz.



Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)




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Referências e sugestões bibliográficas:
-“Gênesis: uma interpretação esotérica”, Sarah Leigh Brown
-“A Bíblia como uma História Pessoal: uma jornada para a luz”, John Lee Baughman
-“Gênesis, Criação e Patriarcas”, Emil Bock
-“Dicionário de Metafísica Bíblica”, Charles Fillmore
-“Mistérios do Livro Gênesis”, Charles Fillmore
-“A Bíblia e as Estrelas”, Corinne Heline
-“Uma Nova Interpretação Bíblica: Velho Testamento, vol 1, Corinne Heline
-“O Conceito Rosacruz do Cosmos”, Max Heindel
-“A Epopeia de Gilgamesh e Paralelos com o Velho Testamento, A. Heidel

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

NADA SE CRIA, NADA SE PERDE, TUDO SE TRANSFORMA


Para que se possa entender um pouco mais sobre o processo reencarnatório, devemos ter em mente, como nos diz o Rabino Philip Berg, que "... cada indivíduo ... é composto de duas partes - a função corporal e a função espiritual ou função interna. O corpo pode entrar em coma, mas a função interna pode continuar totalmente consciente do que está acontecendo ...".

Rav Berg cita ainda a pesquisadora Dra. Elisabeth Kubler-Ross, "...cujos pacientes quase sempre informam haver experimentado, após a morte clínica e a recuperação, um longo túnel com uma luz em seu final."

E é no Sefer haZohar que encontramos uma descrição curiosa e semelhante quando da morte do corpo físico, e que Rav Berg nos esclarece: "O Zohar nos diz que quando a morte do corpo físico ocorre, a alma imediatamente viaja para Hebron, onde está Adão, e que esta viagem se faz por um longo túnel."

Rav Berg nos relata também que a experiência do "túnel" é praticamente inerente a todos os povos, sejam judeus, cristãos, agnósticos ou qualquer outra crença. Por isso nos escreve, fazendo referência à experiência do túnel quando do retorno após a morte clínica: "... dificilmente pode ser produto de uma cultura em particular ou de uma influência religiosa."

"A lógica não admite", afirma Berg, "que a consciência possa ser encontrada no DNA, o que dá um enfático apoio à convicção cabalística de que ela é imortal e que irá, no decorrer do tempo, retornar com todas as suas memórias intactas, mesmo que inacessíveis." Por causa dessa inacessibilidade é que raramente nos lembramos objetivamente de algo do passado. E quando lembramos é um processo subjetivo, distante e variável de pessoa para pessoa, e conforme a necessidade.

Aprendemos, de um princípio científico, que "na natureza nada se cria ou se perde, apenas se transforma", e Rav Berg comenta: "... quem consegue se lembrar de detalhes do seu primeiro ano no mundo? ... apesar de que cada detalhe está lá, assim como os 'bits' no circuito de memória de um computador".

Esclarece-nos Rav Berg que "qualquer físico lhe dirá que matéria é energia, e que a energia não pode ser destruída. Dessa forma, tudo o que aconteceu em nossas vidas - nesta ou em qualquer uma das vidas anteriores - permanece armazenado e viável no universo."

Podemos conceber, então, que tanto a ciência espiritual como a psicologia, a física etc., nos sugerem os mesmos conceitos: inconsciente pessoal e coletivo, "guilgul" (reencarnação), registros akáshicos, samsara e tantos outros termos e conceitos que são usados nas mais diversas tradições religiosas e filosóficas.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)




Fonte da Gravura: https://pixabay.com/id/luar-kematian-744753/





Referência e sugestão de leitura: "Reencarnação - As Rodas da Alma", Rabino Philip S. Berg

domingo, 30 de julho de 2017

O DISCÍPULO ENFRENTA DOIS CAMINHOS, E EM CADA UM VÊ A MESMA VISÃO


"Por qualquer caminho que um discípulo se aproxima de mim, lá estarei à sua espera." (Krishna)

Todos vivemos em Deus, mesmo que a maioria ainda viva inconscientemente de tal fato. Entretanto, dentro dessa vivência, lacunas e necessidades, problemas e obstáculos nos desafiam constantemente no espírito de serviço em toda a parte.

Impera ao discípulo, particularmente, a necessidade de não algemar o coração ao medo e aos obstáculos que o impede ao trabalho em benefício coletivo. E ainda não manter a ideia de que está na obra do mundo e do Plano Divino para "aniquilar" o que achamos que é "imperfeito". Isso é uma necessidade fundamental e sempre atual, pois não estamos em condições evolutivas para julgamentos.

Quando a luz começa a penetrar verticalmente (do "alto") em nós, urge que devamos difundi-la horizontalmente (no mundo) sem medo e sem desejo de aniquilar o que pensamos ser imperfeito. Devemos sim, completar o que está "inacabado", como colaboradores e coadjutores do Plano Divino.

Porém, o problema da dualidade acentua-se, pois o homem não possui ainda qualidades e nível evolutivo suficientes para registrar a verdadeira luz. Aqui faz-se necessário que, em nosso serviço, a prudência e a vigilância sejam constantes, e que nunca esqueçamos que a solução e a luz nem sempre residem onde nós ou a opinião comum pretendem observá-las. Sendo assim, lacunas e obstáculos rondam constantemente àqueles que procuram servir.

Devemos ter sempre em mente que as portas da colaboração ao Plano e o Divino Amor permanecem abertas àqueles que identificam a chamada para o serviço. Além disso, toda a oportunidade de serviço é uma benção dos Poderes Divinos manifestados no homem.

Manter-se no "caminho do meio" ou no "centro" é estar consciente de que o campo de serviço, o nosso horizonte, é o mundo inteiro, e que a luz, o amor e o poder nos penetram verticalmente e constantemente para que possamos cumprir, horizontalmente, nossa parcela de serviço dentro do Plano Divino.

É necessário, cada vez mais, àqueles que se aproximam da realidade do serviço deixarem de ser meramente aprendizes que não atendem ao apelo da "cruz de serviço", ou seja, receber verticalmente e atuar horizontalmente; receber a luz e distribui-la à humanidade.

Se observamos os caminhos da horizontal (o mundo) vemos quão necessário se faz a aplicação da luz; se observamos os caminhos da vertical (a "fonte") vemos quão disposta é a luz para acudir e estar em meio da sua criação. Talvez aí esteja uma das razões pela qual o discípulo, em qualquer posição ou ponto de vista, vê a mesma visão ou senda. E por qualquer caminho há possibilidades de serviço e evolução. "Por qualquer caminho que um discípulo se aproxima de mim, lá estarei à sua espera." (Krishna)

Possam os leais servidores, os homens de boa vontade, os que buscam as corretas relações humanas, aqueles que estão compreendendo e ingressando na senda do serviço, os espontâneos, dedicados e realistas, os trabalhadores devotados e que não demonstram predileções pessoais, serem canais, veículos e cumpridores de sua parte no Plano Divino para a Terra.





Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)






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domingo, 23 de julho de 2017

EVOLUÇÃO - UMA VISÃO DE TEILHARD DE CHARDIN


Estamos vivendo uma época em que certos conceitos devem vir à tona com mais frequência. Principalmente conceitos que reorientam o homem em sua marcha evolutiva e despertam a consciência global ou a consciência da unidade. No curso desse esforço temos, em Teilhard de Chardin, certos conceitos humanísticos que não devem ficar sem o nosso reconhecimento.

O humanismo na concepção de Chardin, segue três direções essenciais, e são: "a fé apaixonada no progresso e na grandeza do homem"; "a exigência do universal"; e "o desenvolvimento sem limites das possibilidades e da expansão pessoal de cada homem". (cf. Denis Mermod, em "A Moral em T. de Chardin")

As três direções essenciais supra citadas são sintetizadas em Chardin em três ideias mestras, a saber: "Liberdade: a oportunidade oferecida a cada homem de transumanizar-se, indo até o máximo de si mesmo; Igualdade: o direito de cada homem de participar, conforme suas qualidades e suas forças, ao esforço comum de promover, um pelo outro, o futuro do indivíduo; Fraternidade: do homem pelo homem, sentido de uma interligação orgânica fundada não somente em nossa coexistência sobre certa descendência comum, mas sobre o fato de representar, no conjunto, a frente extrema, o extremo de uma onda evolutiva ainda em pleno curso. Liberdade, igualdade e fraternidade não mais indeterminadas, amorfas e inertes, mas dirigidas, orientadas e dinamizadas pelo aparecimento de um movimento de fundo que subentende e os suporta." (cf. Denis Mernod, em "A Essência da Ideia de Democracia")

A soteriologia (*) (salvação e redenção), em qualquer tradição religiosa ou filosófica, busca dar sentido e auxiliar a obra divina. E é nesse sentido que os conceitos de grandes pensadores, grandes almas e místicos se fazem cada vez mais necessários, mas não apenas no sentido de uma divagação filosófica, religiosa, sociológica ou política, porém em termos práticos, abarcando uma visão de síntese esotérica entre o protológico (**) e o escatológico (***), ou seja, entre o princípio e o propósito dos seres, ou o antes e o depois no que se refere ao destino do ser humano em termos evolutivos.

Lógico que isso só possuirá uma razão de ser aos que consideram o ser humano um ente com capacidade de ser redimido, reorientado e com capacidades evolutivas; um ser que supera-se a si mesmo, redescobre-se a si mesmo e que um destino cada vez maior e amplo o aguarda.

Que essa visão sempre atual de Chardin possa trazer o ser humano a si mesmo e, ao mesmo tempo, o convite a descobrir-se, a (re)construir-se, a evoluir.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior





Fonte da Gravura:
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Notas:

(*) A soteriologia é o estudo da salvação humana. A palavra é formada a partir de dois termos gregos σωτήριος [Soterios], que significa "salvação" e λόγος [logos], que significa "palavra", "princípio", ou "ensino". (Wikipédia)

(**) A protologia é o ramo da teologia que estuda as origens do universo e da vida, segundo o ponto de vista fé, elaborando, assim, a teologia da criação. (Wikipédia)

(***) No âmbito religioso, a escatologia é considerada uma doutrina que estuda todas as coisas que acontecerão antes e depois do Juízo Final, ou seja, o fim da espécie humana no planeta Terra. Neste sentido, a escatologia pode assumir um tom apocalíptico e profético, tendo como verdade a ideia de morte e ressurreição. (Wikipédia)

domingo, 16 de julho de 2017

AS RELIGIÕES E AS EXIGÊNCIAS DO MUNDO


Historicamente, é uma realidade o fato de que as religiões e escolas espirituais passam por fases ou ciclos de atividades. Há uma certa evolução, transformação e adaptação teológica, filosófica, cultural e sócio-político-econômica conforme o passar do tempo e pela pressão do Plano Divino.

Como aqui se trata de um tema referente à religião, filosofia e escolas espirituais ou iniciáticas, não quer dizer que tal fato, ou seja, as transformações, não ocorram na ciência, arte, psicologia, comportamento, política, economia, linguística etc.

Cabe aqui refletir sobre o por quê a crescente preocupação teológica e educacional para com o meio ambiente, ecologia e outras situações de vida; sobre o por quê um Dalai Lama nos aconselha a pensarmos no desafio dos nossos tempos e que desenvolvamos um sentido de responsabilidade universal; sobre o por quê de um movimento geral de boa vontade mundial esteja cada vez maior e mais operante no mundo.

Por ser uma organização antiga, conhecida e histórica cito, por exemplo, a Igreja. Nela observamos três períodos definidos:

- o período pré-constantiniano, onde vivia mais voltada à espera do "fim" e da salvação, pouco importando-se a respeito do porquê de estar mundo;

- o período constantiniano e pós-constantiniano, onde o misticismo e a experiência sacral lutavam para escapar da realidade temporal do mundo;

- o período atual, onde não há um choque ou conflito entre o sacral e o mundo, mas sim um crescente senso de responsabilidade global.

Nota-se, pois, que a Igreja viveu inicialmente um período de indiferença ao mundo; em seguida um período de protegida e protetora de instituições humanas por questões de sobrevivência e conveniências, porém, o enfoque era místico e de fuga do mundo; e, logo após, um período, ainda em curso, de responsabilidade social e espiritual. Obviamente aqui estou me referindo às Igrejas católicas, ortodoxas e protestantes históricas; não me refiro aqui às igrejas-negócios, ao evangelismo, pentecostalismo etc. atual cujos propósitos tão bem sabemos e que nem vale a pena comentar. Claro fica, também, que a Igreja católica nem sempre foi exemplo de virtude, entretanto, foi modificando seus caminhos ao longo dos anos. Cabe observar ainda que o exemplo da Igreja se aplica, de diversas maneiras e semelhanças, a praticamente todas as outras religiões do mundo, inclusive abrange, em certo sentido, às várias organizações místicas, esotéricas e iniciáticas.

Prosseguindo, pensemos na cruz grega, a cruz de braços iguais em tamanho. Ela pode simbolizar e nos mostrar a realidade atual, o método e o nosso desafio espiritual: o equilíbrio entre o recebimento da Luz e a responsabilidade global; o receber e o dar; a fé e as obras; o caminho espiritual e o mundo com suas necessidades; o não-conflito entre o sacral e o temporal, o espiritual e o material.

Refletindo nisso tudo, cabe a nós a seguinte questão: estamos preparados para essa realidade que nosso tempo exige, ou estamos presos a conceitos e preconceitos estanques do conservadorismo e das interpretações literais das várias escrituras sagradas do mundo? Estamos dispostos a perceber as exigências do Plano Divino a cada momento e que ele é dinâmico?

Eis um desafio sério e profundo que se nos apresenta a cada momento de nossas vidas.





Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)






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terça-feira, 11 de julho de 2017

O AMOR REVELA O PLANO DIVINO


Sabendo-se que a vontade de amar governa o relacionamento e estabelece a síntese, podemos procurar intuir o Plano Divino, tal como ele existe no coração de amor,  para assim podermos auxiliar a revelar o mesmo Plano. Intuir esse Plano Divino é corresponder e buscar o amor que o revela. E o amor sintetiza igualmente como a intuição.

Não adianta somente a postura de análise, dissecação e separação intelectual. Devemos procurar sempre sintetizar, ir às essências e perceber o global, caminho que só a intuição pode fornecer, pois a intuição está além da razão, é de um grau perceptivo maior.

Como o Plano Divino é revelado pelo amor, cabe a cada um de nós, individualmente e também como grupo, buscarmos a intuição que é o amor e o caminho das corretas relações.

Do instinto à emoção, da emoção ao intelecto (razão), e do intelecto à intuição: eis uma longa jornada evolutiva. Nada disso deve ser extinto ou ignorado, pois são necessários no nosso cotidiano. Porém tudo deve ser controlado, sintetizado e transcendido. O importante é chegarmos ao intelecto e, a partir deste, coordenarmos nossa mente, emoção e instinto. O intelecto é o precursor da intuição; a intuição vem impregnada de amor da alma, que é o essencial para um verdadeiro serviço amoroso e desinteressado.

O amor em ação que o Plano Divino nos revela como amor essencial é o que devemos buscar, contatar e trabalhar. Isso nos chega exatamente pela intuição, pelo intuir do Plano exatamente no "coração", no interior, no nosso Eu Divino.

O segredo é bem guardado, está oculto no nosso íntimo, no Eu Sou, mas está muito próximo ao mesmo tempo; está ao nosso alcance, dentro de cada um de nós, se assim o desejarmos.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)





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domingo, 9 de julho de 2017

IDEIAS - IDEAIS – ÍDOLOS


“A filosofia da classe dominante atravessa todo um tecido de vulgarizações complexas para aparecer como 'senso comum', isto é, a filosofia das massas que aceitam a moral, os costumes e o comportamento institucionalizado da sociedade em que vivem.” (A. Fiori abordando o conceito de A. Gramsci sobre hegemonia)


As ideias são as forças do Espírito (Mônada) e que encontram expressão secundária no corpo mental, ou seja, na mente humana. É a partir das ideias, do seu jogo e na sua apresentação que a humanidade desenvolve o poder de pensar e raciocinar, conquistando assim um amadurecimento e evolução no plano mental (corpo mental).

Os ideais, por sua vez, são as forças da Alma (Eu Superior) e encontram expressão secundária no plano astral ou emocional (corpo astral ou emocional).

As ideias vão gradativamente tomando “forma”, ou seja, vão se tornando ideais defendidos, vividos, debatidos, assumidos ou excluídos.

Por outro lado, os ídolos são as ideias já na forma de ideais, porém cristalizados, e tomam expressão no plano físico, na existência material.

Dependendo do grau evolutivo de cada um, o tempo para plasmar uma ideia é variável; e as consequências quando se tornam ideais e ídolos também são relativas à evolução individual e coletiva.

Porém, a problemática começa quando cada um tende a cristalizar-se num ponto de vista e a excluir os outros com discursos e veemência. Por isso temos os olhares ligados aos diversos “...ismos”, o que acalora a evolução humana; é como se fosse um “mal necessário”.

A ciência, a religião, a filosofia, a política etc., sempre citam seres e situações supostamente demonstráveis. Podem, alguns, até terem sido realidade num dado momento e contexto, mas que não são aplicáveis à experiência de cada um de nós em todas as épocas.

Confundem-se mitos e símbolos com realidade. Por isso, vemos as ideias sendo distorcidas em ideais, a partir de interesses diversos e ideologias, e consagradas e materializadas por leis, as vezes duras, mas que fogem de uma experiência individual.

Geram-se assim, multidões de seguidores de tradições impostas, sem a mínima consciência de que a maior parte das tradições, como fatias ou interpretações de algo transcendente, apenas disputam espaço e seguidores, tentando impôr comportamentos e hábitos anacrônicos. Basta olharmos as tentativas de modelos de “santos”, “heróis”, “mártires”, “nóbeis”, vestes, ritos e tradições multi milenares. Tudo se cristaliza no imaginário humano: mitos bíblicos e escrituras consideradas sagradas (de qualquer tradição), criacionismo, sociedade totêmica, imaginários, anacronismos e idiossincrasias.

Por isso, segundo a lógica de Karl Marx, foi o homem o criador de Deus, à sua própria imagem e semelhança. Creio que Marx inverteu os conceitos por usar uma visão muito limitada e baseada em experiências e conceitos de velhas e infantis tradições do mundo, ou seja, baseou-se nas superficialidades dos fatos, mas o exemplo é bem cabível nesse contexto.

É difícil a uma pessoa identificada fanaticamente e irracionalmente a algum “ismo” olhar com bons olhos a uma outra que pertença a outro “ismo”. Por isso, fala-se em tolerância. Mas o que se entende por tolerância não é uma virtude e sim uma tentativa, um pouco mais civilizada, de convivência. É como se disséssemos: eu estou certo, o outro está errado, mas eu o tolero...

Vemos que as pessoas possuem uma visão variadíssima sobre o mundo e ainda muitíssimas ideias que se transformam em ideais. As consequências dessas expressões no mundo podem ser consideradas boas ou não. Mas o que destaca-se é a falta à humanidade de uma visão evoluída e amadurecida que lhe permita a compreensão, tanto do ponto de vista individual quanto coletivo, de que tudo é relativo e fragmentado na visão imatura do ser humano. Falta-nos os olhares sobre o mundo despreocupados e isentos de interesses, e a visão de que a parte não pode opor-se ao todo; ela é apenas uma parte, e o que necessita-se é de uma harmonização e equilíbrio.

A história do mundo é baseada no aparecimento de ideias, sua aceitação ou não, sua transformação em ideais ou não, e em aproveitamento, cristalizações e ações. E a história tem nos mostrado as consequências dos ideais e das ações. Por isso, concluiu o grande filósofo Pietro Ubaldi: “Não sois ainda uma sociedade, mas apenas uma grei, um desencadeamento de forças psíquicas primordiais, explodindo confusamente.”

Muitos já sentem atualmente a necessidade de amadurecimento e conscientização, sentem a necessidade de superar-se a si mesmo e às circunstâncias. Compreendem que a conformidade, a rotina e a acomodação a velhos e desgastados (pré)conceitos religiosos e tradições são fatores tolhedores ao progresso; percebem que as ideias distorcidas e com interesses ideológicos são transformadas em ideais obtusos e engessados na sociedade.

Possamos entender que as ideias são essenciais e puras; são necessárias à evolução. Mas que possamos enxergar, também, que elas podem ser maculadas em ideais cristalizados à serviço de forças e ideologias contrárias à evolução. Os limites nem sempre são perceptíveis.

A meta é a renovação constante do ser humano, tanto como indivíduo como coletividade; não renovar-se é compactuar com uma visão obtusa e estagnada. E a ferramenta mais eficaz é a consciência, trabalho e vivência no presente; qualquer tentativa de reviver ou viver do passado nos leva, no mínimo, a um anacronismo. O mesmo se dá na tentativa de viver um futuro; desperdiça-se a maior parte do tempo e energia que poderiam estar sendo utilizados no presente para o nosso desenvolvimento e reforma íntima.

Óbvio que para a nossa evolução atual e visão há a sensação de passado e futuro; tempos históricos etc. "Houve", "há" e "haverá" é a nossa percepção (ilusória) para evoluir. Entretanto, um "futuro" melhor só existirá se trabalharmos com a consciência e missão no presente; o mesmo se dá com o chamado "conserto" do passado: só se efetiva se trabalharmos conscientemente no presente. Assim, as ferramentas únicas e infalíveis são: o serviço amoroso e desinteressado, a meditação e o estudo; tudo no "aqui e agora".




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)






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sexta-feira, 7 de julho de 2017

NOÉ - DILÚVIO - ARCA (UMA VIVÊNCIA INTERIOR)


Um aspecto pouco lembrado quando estudamos a Torá (Pentateuco) é que o povo judeu foi subjugado mais de uma vez por outras nações (Assíria, Babilônia, Egito etc.). É compreensível, portanto, que no cativeiro o povo judeu teve contato com o folclore e tradições desses outros povos e, num processo muito natural, acabou incorporando elementos estrangeiros ao seu.

A Gênese, por exemplo, é visivelmente uma interpretação ou visão da Saga de Gilgamesh (Babilônia). Sabemos que grandes enchentes e catástrofes ocorreram (como sempre ocorrem) em vários pontos do planeta. Praticamente todas as culturas antigas falam de uma grande cheia e, a partir desse fato, surgiram muitas histórias, narrações e mitos simbólicos.

Tendo em vista a degradação moral, mental e espiritual dos povos daquela época por um lado, e a ocorrência de uma grande enchente (ou várias enchentes) por outro lado, a associação tomou um sentido moral e teológico. Assim, em todas as tradições e mitos o homem era purificado de sua degeneração, colhendo dos males que ele mesmo plantou, pela ação dos elementos, no caso em questão, a água. Esta assume uma qualidade de purificadora e restauradora.

Mas o mais importante em todas as narrativas e mitos simbólicos é que acabam por esclarecer, mostrar e exemplificar os diversos aspectos da caminhada evolutiva humana. A lenda ou narrativa do "dilúvio", nos mostra, claramente, dentre inúmeras interpretações e ensinamentos válidos, duas lições: a primeira delas é que a natureza (o Criador) sempre preserva a criação, ou o melhor da criação, sob todas as circunstâncias. A segunda lição que podemos tomar é que quando momentos caóticos ("diluvianos") acontecem na vida humana, precisamos nos "salvar" construindo uma "arca", ou seja, um espaço interior para análise, reflexão e novos rumos na vida. O mesmo acontece com a humanidade como um todo.

Portanto, os relatos das Sagradas Escrituras, de todos os povos, nunca devem ser tomados literalmente, pois geralmente são atemporais e muito pouco se referem a fatos históricos reais. O valor está nas entrelinhas, na interpretação correta dos códigos simbólicos sempre a nos indicar e sugerir um esclarecimento atual, pessoal ou coletivo.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)







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PRÁTICA EDUCACIONAL VISANDO A EVOLUÇÃO


Podemos admitir que todo aquele que vai dedicar-se ao ensino, seja espiritual ou em qualquer área do conhecimento humano, deverá estar preparado para as inúmeras dificuldades e obstáculos que surgirão. Caberá uma certa habilidade, de certo, a cada educador para superar ou amenizar as dificuldades.

O obstáculo mais sério às atividades de educar e planejar, além do domínio do assunto, refere-se ao fato de que todo o trabalho da ideologia dominante, seja no país, na escola, no grupo espiritual ou em qualquer outro, geralmente está enfocado no sentido de anestesiar a percepção das contradições e a consequente necessidade de mudança. E sem mudanças não há evolução; é a lei do universo que não é estática e sim dinâmica. Talvez mais grave do que esse obstáculo, seja ainda o fato de que o educador, o orientador ou o dirigente, por si mesmo e em si mesmo, não perceba a necessidade de mudança.

Um dirigente espiritual ou um professor em determinada área deve ser um pesquisador e um exemplo de crescimento e desenvolvimento. Um exemplo de crescimento em seu papel de educar, planejar e agir na sua própria vida e conduta. Ser livre para poder ensinar a liberdade, e não estar simplesmente à serviço de uma ideologia e preconceito. Deve ser livre principalmente no seu interior. Deve perceber as contradições do cotidiano para, pelo menos, tentar mudar e perceber a necessidade de mudança.

Concebendo-se a educação como um fator de mudança, renovação e progresso, e admitindo-se que o professor ou dirigente de um grupo ou instituição deve saber para onde e como direcionar-se, é necessário, ao planejar, antecipar de forma organizada as etapas a seguir e atingir para que a mudança seja uma realidade alcançável.

Embora tenha suas decisões, deveria ficar claro que seu plano, mais ou menos em detalhes ou planejados, deve acompanhar a realidade do cotidiano e os interesses do grupo e dos indivíduos, que são mutáveis e precisam ser sempre levados em consideração, pois a aprendizagem, material ou espiritual, não é um processo imutável e fixo. Infelizmente a doutrina do “purismo doutrinário” está sempre presente como um mofo ou ferrugem em todas a instituições.

É importante que o ensino e a informação tenham um plano que possa ser reajustado conforme a necessidade do cotidiano que é imprevisível. Muita coisa não prevista poderá ser tão importante como o que foi previsto.

Como tudo na vida, o planejamento tem sua utilidade, seus limites e potencialidades. É um instrumento, um meio e não um fim. E se o significado da realidade for considerado e percebido, este instrumento se torna desafiador e proporcionador de melhores resultados na prática educacional, orientadora e doutrinária. O que não deve ser perdido de vista é que o objetivo sempre deverá ser o evolutivo. E evolução não combina com estagnação, com “purismos”, com doutrinas prontas e fechadas, com tradições enfocadas em obediência e dogmatismos.

Um educador ou instrutor deve ter a humildade de entender que a sabedoria verdadeira está infinitamente além de suas ideologias, credos, preconceitos e presunções. E também muito longe daquilo a que grupos, com suas ideologias alienantes e inversão de valores, impõem tentando dominar e explorar a humanidade.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)






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quinta-feira, 6 de julho de 2017

O CAMINHO SIMBÓLICO DO SER


Em áries, começamos a formar uma ideia com a qual se iniciou o processo de manifestação; um corpo mental está se delineando.

Em touro, a ideia alcançou o corpo emocional e ganhou substância do poder do desejo e foi envolvida em uma forma astral.

Em gêmeos, a ideia chegou à dimensão da vida humana, à multiplicidade de formas e conhecimentos; o corpo etérico se fez presente.

Em câncer, essa ideia, esse pensamento ou essa energia do mundo das ideias abstratas recebe uma forma física.

Em leão, o homem se torna a estrela de cinco pontas (símbolo da individualização), um humano, um ser humano que sabe que é um indivíduo e toma consciência de si mesmo como um “eu” e começa a dizer “eu” e “meu”.

Em virgem, dá-se o primeiro passo para a espiritualidade e a tomada de consciência do espiritual.

Em libra, começa o equilíbrio entre o material e o espiritual.

Em escorpião, a grande ilusão é clareada e superada; a grande ilusão é o uso da personalidade para fins egoístas, mas a personalidade não deve ser destruída.

Em sagitário, completa-se a unificação da personalidade com a alma; a consciência da Presença (Eu Sou) começa a se fazer presente.

Em capricórnio, abre-se a passagem para a dimensão espiritual; começa o serviço grupal, o altruísmo.

Em aquário, o discípulo torna-se um mestre servidor; inicia-se o serviço desinteressado, a consciência grupal e o esquecimento de si.

Em peixes, o serviço mundial se torna mais amplo e o discípulo se transforma em um salvador mundial; adquire-se a capacidade de estimular grupos e até multidões rumo à luz; a consciência torna-se cósmica.





Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)
Segundo os seguintes autores: Alice Bailey, Torkom Saraydarian, Trigueirinho, Alan Oken, Clara Weiss




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O “CORAÇÃO” COMO NOSSO CENTRO


O Centro, o Eu Sou, o Coração, a Rosa no Centro da Cruz e tantas outras denominações são as tentativas de explicar o inexplicável, de mostrar simbolicamente aquilo que é a origem, o princípio, a essência do nosso ser. Mas a simbologia é sempre válida e pode muito nos brindar e sugerir diversas reflexões. E quando a ciência espiritual fala em Coração não está se referindo ao coração físico, ou a sentimentalismo, ou a emocionalismo, porém a um Ponto simbólico que coincide com a nossa região peitoral e que possui relação com o centro energético cardíaco.

Sabemos que todo aquele que se fundamenta nesse Centro, começa a perceber a unidade de consciência e, consequentemente, a vida real. É-nos ensinado que o Coração percebe o âmago das coisas, o íntimo e o ponto de partida de tudo. De fato, esse Ponto neutro percebe a síntese, e em síntese, porque está em íntimo contato com a Realidade Última.

“O Reino de Deus está dentro de vós, … prepara teu coração para que esse esposo possa se dignar vir a vós e em vós morar.” Entenda-se aqui, que o “esposo” é o estado crístico a atingirmos por evolução, a Divina Presença, o Eu Sou, a “Shechinah”, a “Tifereth”. Eis mais uma alusão à realidade que nos aguarda vivenciar, e que é descrita, simbolicamente, em todas as tradições.

A glória do amor cósmico revela-se no Coração que gradativamente remove os obstáculos causados pela ignorância, ou seja, devemos “preparar” o nosso Centro, centralizarmo-nos e equilibrarmo-nos para que o amor-sabedoria esteja atuando em nossa vida. O Amor do Coração do Altíssimo quer atuar no Coração dos homens porque constitui-se a própria Presença. Porém, os homens necessitam vivenciar em profundidade essa caminhada, essa “escada de Jacó”, para que seja isso uma realidade e não uma teoria.

O Amor Divino é totalmente imparcial; não há um Ser Supremo pessoal, ou grupal, ou nacional, ou de uma denominação religiosa, mas, por outro lado, os amores humanos apegam-se a objetos particulares com a exclusão de outros. Os amores humanos causam sofrimento porque são estreitos, limitados e mesclados com o egoísmo. O Amor do Absoluto é puro, é o desejo total de dar. Não procura nada para si mesmo, não exclui nada de sua criação (emanação), porque se pudesse fazê-lo já não seria o Absoluto, por haver algo fora de si.

Isso nos leva a refletir que o Coração, como Centro, quando bem orientado, dirigido e percebido, faz o ser humano superar a sua natureza inferior e buscar o estado mais elevado possível de consciência numa determinada faixa evolutiva. Portanto, percebemos que só o Coração faz o homem dedicar-se ao bem comum e à ideias e ideais elevados. Pois Ele é a grande estação de luz e amor que orienta os seres humanos ao “retorno à casa do Pai”.

Por sua característica profunda, esse Ponto central nos seres, é um verdadeiro facilitador à recepção e ao entendimento esotérico, pois ele aspira simplesmente o “ser” e não o “ter”, quando corretamente direcionado. Sacrifica-se a tudo e a todos, é o nosso Mestre na busca da síntese, é o Amor em ação. É a simplicidade, o empenho e a responsabilidade que sentimos dentro de nós. É a Lei que confraterniza e congrega. Fala sem palavras quando silenciamos a nossa personalidade humana ruidosa. É o cálice onde bebemos do Amor Divino. O próprio viver e compreensão esotérico em nossa senda evolutiva.

A percepção e o conhecimento sobre o Coração, como um Foco de Luz, é importante à vida, à unidade de consciência. Constitui-se num “refúgio”, onde podemos, conforme os ensinamentos budistas, perceber o Buda (a essência), o “dharma” (a lei) e a “sangha” (a vivência e convivência real dos seres). Basta, para tanto, a união íntima de nossos Corações com o Coração Divino. Tal união leva, por tal fato, ao entendimento, a uma luz clara sobre a verdade, à fé, ao serviço e ao Plano Divino.

Esse Centro está em toda a parte e para sua presença não há obstáculos, só a exigência de que floresça a Rosa no centro de nossa cruz, de que seja burilada a pedra bruta da personalidade até atingir a Pedra Cúbica da individualidade, a alma, simbolicamente falando.

É nesse enfoque que místicos, esoteristas e espiritualistas de todas as épocas relacionavam o Coração a uma chama, a um “ardor” divino, a um atrito íntimo da cruz com a rosa, tendo como consequência um “aquecimento”. Vê-se, pois, que o calor é aconchegante e proporciona uma aproximação congregante de vontades em torno de ideais elevados. E só o Coração, como ponto focal, como uma lente, pode gerar esse calor, esse “fogo”, um propulsor evolutivo.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)






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terça-feira, 4 de julho de 2017

DESAPEGO - A LIBERTAÇÃO DOS ANSEIOS


É muito comum o fato de renunciarmos aos prazeres e ambições do mundo e adquirirmos, por outro lado, outros prazeres e ambições, geralmente disfarçados de espirituais e de tradições, não se dando conta da conduta teatral ou hipócrita. Habitualmente assim agimos, pensando que somos desprendidos do mundo, adotando posturas e comportamentos anacrônicos no vestir, no falar e no agir.

Por vezes manifestamos apego a uma devoção, a um livro, a um sistema de espiritualidade, a um método de meditação, às graças da oração, à virtudes e à coisas que são, realmente, positivas e benéficas. Mas, assim mesmo, corremos o risco de nos deixar cegar e fanatizar por tais atitudes.

A própria procura por paz interior é uma criação e apego; prazeres que buscamos no espiritual. Estar apegado e dependente dos "ismos" e "prazeres" espirituais é o mesmo, portanto, do que estar preso a um imoderado apego por quaisquer outras coisas. Ficamos cegos pelo desejo de chegar a um fim, a uma ávida fome de resultados, de visíveis êxitos. Tornamo-nos peritos na arte de nos iludir e não nos damos conta de que é o nosso eu pessoal, a personalidade que está tentando, disfarçadamente, salientar-se a si mesma e perante aos outros.

Esquecemo-nos totalmente que a tranquilidade e a paz interior só são alcançadas quando nos desapegamos do mundo, ou seja, quando chegamos a uma atitude desapaixonada em relação ao prazer, à dor, às formas de bem e de mal. O desapego deve substituir a dor e o prazer. Só assim nossas funções sensoriais e elevados sentidos da alma desempenharão suas reais funções.

Devemos nos libertar do anseio por todos os frutos e objetos do desejo, quer terrenos, quer tradicionais, quer espirituais, em qualquer momento.

Pela despaixão e desapego, o aspirante e servidor fica livre de efeitos cármicos resultantes de sua atividade e torna-se possível reorientar-se, de modo que sua atenção não seja mais atraída para o exterior pelo fluxo de imagens mentais, mas seja retirada e fique dirigida exclusivamente sobre a pura realidade atemporal.

Urge que nos desapeguemos de todas as formas de percepção sensorial, tanto a superior como a inferior. Devemos ser indiferentes ao pequeno eu-personalidade.

O recolhimento é impossível para o homem dominado por todos os imprecisos e flutuantes anseios de seu próprio desejo. Tais anseios, mesmo que elevados, se não deixarem de ser interesseiros e apegados aos frutos das ações são impedimentos, ânsias e ansiedades que nos afastam da verdade e do caminho real.

Não podemos atingir a real paz interior e um crescimento pleno se não nos desprendemos e nos desapegamos até mesmo do desejo de ter paz e recolhimento espiritual, pois isso, por si mesmo, já gera uma ansiedade e um certo desconforto.

Parece que há uma só maneira de avançarmos: a renúncia a todos os desejos e o deixar levar-se, naturalmente, pela Vontade de Deus; Ele nos dará o recolhimento e a paz, mesmo entre as lutas e provações. O caminho que leva a Deus atravessa profundas trevas onde todo o conhecimento, todo o prazer, toda a alegria são aniquilados e absorvidos pela transbordante pureza da luz e Presença de Deus.

O que conhecemos, o que podemos possuir e desejar através das nossas faculdades poderá ser, conforme nossas intensões e uso, um certo obstáculo à pura "posse" do Divino no nosso interior.

Tudo isso, é lógico, não invalida nossas buscas, pesquisas, aspirações e crescimento material, psicológico e espiritual. O que deve ser entendido é que o processo deve ser natural, sem fanatismos, sem apegos, sem presunções e sem hábitos e cristalizações.

Essa é a razão pela qual de tudo devemos nos desapegar e nos libertar. Devemos estar acima de qualquer posse e alegria para alcançar a genuína "posse e gozo de Deus", pois se nos ligarmos demasiadamente nos "acidentes" corremos o risco de perder o que é essencial, o verdadeiro objetivo. Portanto, não troquemos o fim pelos meios para que entendamos, finalmente, a diferença entre "ter" e "ser", e assim, com humildade e despretensão, vivermos na real Presença Divina.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)






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