sexta-feira, 30 de junho de 2017

PARDÊS - O POMAR


A Bíblia (e todas as Escrituras Sagradas de qualquer tradição) possui quatro níveis de entendimentos ou sentidos.

A cabala, no caso da Bíblia, explica os níveis através do conceito de PARDÊS (pomar, em hebraico).

A palavra Pardês é formada por quatro letras: PRDS (פרדס), que são as iniciais das quatro palavras ou níveis de interpretação:

Peshat (sentido óbvio, simples e exterior);

Remez (sentido homilético, alusão);

Drash (sentido alegórico) e

Sod (sentido secreto, íntimo, das causas).

São as "vestimentas" das Escrituras.

Entrar no POMAR da sabedoria é penetrar e compreender cada nível; é buscar a sabedoria oculta na letra. É compreender a origem e o destino do mundo e dos seres.

Cabe a cada ser humano buscar, gradativamente, e conforme o seu nível evolutivo, a LUZ ascendente que se oculta nesses níveis. É uma longa jornada de autodescobrimentos, "insights", correções, compreensão de sua missão individual em cada encarnação e ainda sua destinação.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)






Fonte da Gravura:
https://pixabay.com/pt/torah-b%C3%ADblia-dentro-de-religi%C3%A3o-89074/

REABILITAÇÃO PSICOLÓGICA


Em todos os acontecimentos encontramos alguma razão psicológica, consciente ou inconsciente. Isso está implícito e é inerente aos indivíduos, aos grupos e às nações. Basta uma pequena observação para assim a constatarmos nas atividades das religiões, tradições, culturas, comportamentos, aspirações, nacionalismos e tantas outras atividades do nosso cotidiano.

O grande problema, e que torna as razões psicológicas tendenciosas, conflitivas e egoístas, é a carência evolutiva que ainda permeia grande parcela da humanidade. A falta de evolução e visão trás à tona todas as “razões” e “tradições” de consequências perversas, em nível individual e coletivo.

Mas na própria problemática está embutida a busca de soluções. Assim, em meio às crises, percebe-se uma crescente tomada de consciência da necessidade de uma revalorização, de uma nova avaliação e renovação filosófica, jurídica, política, religiosa e social menos parcial e mais abrangente. A evolução tem seus mecanismos de defesa para que o caos seja apenas corretivo e não a lei imperante.

Procurando-se ter uma visão mais espiritual do problema, cabe enfatizar a importância da alma como componente fundamental no processo de reabilitação. Alma que atua em um plano mais elevado, além do plano e visão da personalidade encarnada neste mundo. Sempre nos foi dito que devemos buscar as respostas e soluções no íntimo, na alma/espírito, no ser interior. Conhecer-se a si mesmo.

Vemos, portanto, que somente aquilo que é construído numa profundidade capaz de alcançar a essência espiritual do ser humano, a alma com suas respostas e intuições, poderá sobreviver e ser reabilitado, porque será erguido na dimensão da eternidade, mesmo que a ação e seus objetivos estejam inseridos no tempo e no espaço, ou seja, no plano de manifestação.

Devemos saber e ter uma habilidade de agir no tempo e no espaço, mas sempre investindo na eternidade, nos valores perenes, para que as ações não sejam destinadas ao fracasso de uma existência puramente fenomênica, ilusória e impermanente. Porque toda construção ou ação que se afasta do objetivo essencial ou do Plano Divino dá lugar a objetivos ilusórios e transitórios, normalmente calcados em interesses e personalismos humanos, filhos do orgulho, presunção e egoísmo.

É essencial uma pausa e uma reflexão constantes em nossa caminhada para que analisemos possíveis novos rumos a seguir. Observar como devem ser e os reais motivos de nossas propostas de ação e de serviço. E, de suma importância, devemos fazer o hercúleo esforço para que nos tornemos mais livres, gradativamente, das preferências geradas pelo personalismo tão cultuado pelo ser humano.

Urge que nossa visão e proposta de mundo sejam globais. Os estudos dos problemas humanos devem também ser ampliados e globalizados para que as respostas, propostas e possíveis soluções sejam válidas e aplicáveis no mundo que evolui e exige novas realidades, enfoques e soluções. Aumentar a abrangência dos estudos e reflexão proporciona ao homem uma percepção mais clara da integração psicológica e social e evita o aprisionamento nas partes e nas consequentes separatividades.

É momento de abandonarmos os ressentimentos e desconfianças. É hora de não somente nos enfocarmos nas diferenças externas. Não existem divisões entre luz e trevas, mas tão somente seres que caminham no mesmo planeta, e em todo o cosmos, em graus de consciência, despertamento, evolução e compreensões diferentes. Tudo evolui e não podemos permanecer estagnados em diferenciações e propostas que talvez já não sirvam mais a um propósito ou às necessidades atuais. Tradições são importantes, mas nosso objetivo maior não é ficar atrelado a elas, pois isso causa estagnação, presunção e fanatismo. Elas nos auxiliam, porém, principalmente, nos indicam o caminho a seguir e não uma a parada final.

A educação, em especial, deve seguir novas buscas, novos rumos e visão, pois é uma maneira de desenvolver uma atitude psicológica correta, levando os educandos a uma correta opinião pública, dentro do possível, sem as influências tendenciosas e intenções não corretas. A reabilitação psicológica reclama e requer os valores da cooperação. E uma educação que somente ensina a competir e não a cooperar está fadada ao fracasso. A verdadeira educação desperta a cidadania e esta, por sua vez, leva a uma reabilitação psicológica.

Um ideal, realmente maior, faz com que cada ser humano, cada grupo ou nação transcenda sua visão míope e fragmentada, suas pretensões e presunções egoístas e de autoafirmação. O progresso e a felicidade das massas só podem ser conseguidos pela melhoria dos indivíduos, melhoria esta livremente aceite e compreendida, fruto da evolução  sócio-psico-espiritual e educação corretamente orientada. A educação é a condição “sine qua non” do progresso e da evolução, entretanto tem sido desvirtuada e falsificada por interesses diversos. Agora é necessário, e tendo-se em vista a reabilitação psicológica, desnacionalizá-la e usá-la no seu verdadeiro sentido que nada tem a ver com, simplesmente, informação ou instrução que na grande maioria das vezes tem sido perigosa, inútil, fútil e subordinada ao egoísmo, presunção e interesses de mentes alucinadas.

Com o passar dos tempos e com o avanço científico, o mundo cada vez se torna “menor”, obrigando os povos a se tonarem uma comunidade. Isso é um desafio para cada um e para todos os grupos e nações. E para enfrentar tal desafio o sentido de responsabilidade universal deverá ser a meta de todos; é uma questão, no mínimo, de sobrevivência. Todos os ramos do conhecimento e atividades humanas deverão rever seus conceitos e preconceitos e entrar num novo ritmo.

A reabilitação psicológica depende de cada um dos seres humanos, dos grupos e nações. Depende da atenção dada ao que acontece no mundo, depende da boa vontade daqueles que despertam para um novo mundo. Depende da atuação prática dos que se sentem tocados pelos novos paradigmas de uma nova ordem mundial. Depende do abandonar o “homem velho” e vestir-se do “homem novo”. Depende da cooperação como caminho, do novo enfoque da educação, do relacionamento do homem para com a natureza, das relações internacionais, da liberdade e do cultivo das qualidades humanas positivas e baseadas na sua essência interior, na alma, na voz divina interna que está sempre pronta ao auxílio. Depende do equilíbrio do coração-mente tendo em vista o espírito e o verdadeiro sentido da vida. Do contrário, trilharemos o caminho da fuga na ilusão, aprisionados num passado que não existe mais e num abstrato futuro, deixando fugir o presente, este onde se situam as melhores ferramentas para qualquer crescimento e soluções.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)






Fonte da Gravura:
https://pixabay.com/pt/psicologia-psique-m%C3%A1scara-gradinha-1959758/

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O MUNDO INVISÍVEL É ALTAMENTE VISÍVEL QUANDO A "VISÃO" NÃO ESTÁ OBSTRUÍDA


O "olho" da visão é o olho interno, o olho do homem espiritual. É o olho através do qual a alma observa o mundo e dirige a personalidade encarnada.

Todos os seres estão, gradualmente, desenvolvendo a visão interna por meio da evolução. Essa visão é o portal da Iniciação que fará a humanidade contatar a alma e adquirir a "impressão" espiritual.

A partir dessa percepção "mística" é que se começa a "ver" misticamente a alma, a Deus e o universo. Por isso dizemos que o mundo invisível é, em realidade, altamente visível quando o olho não está obstruído pelos aspectos inferiores da personalidade involuída, descontrolada e não alinhada.

A visão não significa exatamente e somente o ato de ver como o conhecemos e concebemos. É, além de tudo, uma percepção e visão iluminada pela luz espiritual; é a luz divina nos propiciando esta visão. E a partir do coração e da mente unidos, a alma vê e pode ver-se a si mesma. É só com a luz e na luz que podemos ver; daí a iluminação daqueles que verdadeiramente "vêem".

A realidade do mundo e as verdadeiras necessidades são vistas somente por aqueles que vivem nessa luz, no âmago das necessidades reais, na alma. Por conseguinte, a visão proporciona a capacidade do real serviço e leva à sabedoria.

A capacidade do ser humano de perceber a vida em planos superiores é ainda utilizada pela Hierarquia Espiritual, tornando os homens instrumentos de serviço. É vendo as verdadeiras condições planetárias, grupais e individuais que se pode canalizar as energias de transformação, pela irradiação da alma, para onde forem necessárias. Somente assim se realiza o Plano Divino.

A ignorância, a falta de discernimento, o materialismo, a personalidade não integrada, a falta de alinhamento da personalidade com a alma e a falta de sentido e objetivo na vida são, por outro lado, alguns dos vários fatores de obstrução do olho da visão.

Para poder ver o "Uno", o "Um" e a Unidade do universo deve o homem purificar-se e libertar-se de tudo o que não seja essencial; deve "fechar" os olhos corpóreos e elevar-se "acima" do mundo; deve buscar o mundo das essências, das causas, o mundo esotérico, lembrando-se que esoterismo é a ciência das essências, ou a ciência da alma das coisas.

A interiorização e a intuição profunda acabarão abrindo o olho da visão para o invisível, para o "Um" e para a realidade.

Importa, enfim, que busquemos e deixemos manifestar essa realidade que a tudo inclui, e que estejamos conscientes e ativos no processo da nossa evolução e redenção.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)






Fonte da Gravura:
https://pixabay.com/pt/abstract-bela-beleza-blue-fechar-19175/

quinta-feira, 22 de junho de 2017

RESPONSABILIDADE NA REENCARNAÇÃO


Alguns dizem que a reencarnação anularia o cumprimento da Lei (Torah/Pentateuco), ou dos ensinamentos de qualquer outra escritura das várias existentes, pois nada seria preciso cumprir, apenas reencarnar várias vezes para se aperfeiçoar.

Ledo engano, a consciência da reencarnação nos faz mais responsáveis, cumpridores das leis, merecedores das dádivas divinas e oportunidades de correção. "A natureza não dá saltos", somos como estudantes começando nas primeiras séries e, gradativamente, de ano após ano, de série após série, sempre avançando no grau de conhecimento, correção ("tikun") e habilidades.

Na verdade não há várias vidas; há uma vida somente. Porém, essa única vida se desenvolve em várias etapas e estágios, sempre evoluindo, ou seja, despertando ou relembrando daquilo que já o é em essência, em consciência, em sabedoria.

Os que temem a reencarnação é porque pensam haver vários "eus"; mas não há vários "eus", há um "eu" somente, passando por várias roupagens e dimensões infra humanas, humanas e supra humanas. No plano da alma, como almas (Eu Superior), somos um somente; uma única individualidade (ou personalidade-alma) estagiando como várias personalidades (máscaras ou roupagens) no tempo e no espaço.

Ninguém deixa de ser o que se é só porque trocou de roupa. O ser humano, no fundo, tem medo da reencarnação por estar extremamente apegado à sua personalidade atual, às suas posses, enfim, seus apegos; junte-se a isso o medo produzido por sua consciência cheia de "culpas" e imperfeições que gerariam correções dolorosas no futuro. É bem mais cômodo, por este fato, simplesmente crer numa "salvação" externa, num simples perdão e... pronto!

Está na hora do ser humano deixar a infantilidade, de tentar enganar-se a si mesmo crendo na letra morta das escrituras sagradas de suas tradições diversas e buscar a consciência, o crescimento, a maturação e a responsabilidade.



Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)





Fonte da Gravura:
https://pixabay.com/pt/s%C3%ADmbolo-reencarnar-religi%C3%A3o-25893/

TRANSMUTAÇÃO: SIGNIFICADO - DEFINIÇÃO – REALIZAÇÃO


Toda a evolução abrange, em todos os sentidos e níveis, a transmutação.

Vejamos: no homem há uma modificação gradativa que leva à fusão dos aspectos da personalidade. Entende-se por personalidade os níveis físico-etérico (instintos), astral (emoções) e mental (intelecto). A fusão, coordenação, equilíbrio e pleno funcionamento harmônico e elevado destes três níveis ou corpos da personalidade humana constitui-se uma transmutação evolutiva que cada ser, gradativamente e por evolução, alcança. E à medida que isso ocorre a alma consegue, por sua vez, “usar” e atuar, cada vez melhor, os seus três veículos de manifestação no mundo da encarnação.

Há também outra transmutação que ocorre, gradativamente, na evolução humana: a transmutação dos quatro centros inferiores nos três superiores. Ou seja, os quatro chacras inferiores (básico, genésico, solar e cardíaco) transmutados e controlados pelos três chacras superiores (laríngeo, frontal e coronário). Isso ocorre paralelamente e decorrentemente do trabalho de equilíbrio e coordenação da personalidade, ou seja, o eu inferior sob a orientação da alma, o Eu Superior.

Assim sendo, a partir dessas conquistas evolutivas, muito trabalho, crises e "sofrimento", a personalidade humana, cada uma no seu devido momento, vai sendo fusionada à alma. Consequentemente, a humanidade vai sendo fusionada, lentamente, à Hierarquia Espiritual, à Grande Fraternidade Branca, aos Espíritos de Luz que controlam e orientam o processo evolutivo na Terra.

Pode-se dizer que transmutação, no que diz respeito ao homem, é a modificação e a redireção das energias mentais, emocionais e físico-instintivas, dirigidas de tal modo que sirvam para revelar a alma, o Eu Sou, o íntimo, a nossa verdadeira essência permanente. É ainda a utilização correta dos vários aspectos da energia onde quer que o Eu, a alma, sinta que deva ser utilizado para fazer progredir a evolução e auxiliar a concretizar o Plano Divino na Terra.

Quando se aborda a transmutação, deve-se não esquecer que os conceitos de unidade e de síntese não só se constituem como apenas itens importantes, mas essenciais neste processo. Por isso, é requerido de cada ser humano que sua visão e metas sejam sempre visando o coletivo, o altruísmo e o desinteresse pessoal.

Além do mais, é correto afirmar, ainda, que transmutar e evoluir significam também crescentes novos desafios e paradigmas, não só na esfera pessoal como também na social, política, econômica, educacional e religiosa. Porque também se nos desafiam crescentes formas novas e aperfeiçoadas de organizar o conjunto de relações dos seres entre si, com a natureza e com o seu sentido de ser e existir.

Segue-se, pois, que os conceitos de transmutação extrapolam o nível pessoal, social e planetário, porque abrangem desde o microcosmo até o macrocosmo. E é nesse processo que lentamente vamos descobrindo nossas raízes cósmicas e atingimos a compreensão ampliada e esotérica dos sagrados “mistérios”.

Eis a chave dos grandes mistérios, do autoconhecimento e do objetivo sublime da vida conforme os Planos do Altíssimo.

Nossas possibilidades e destino são infinitos. Só precisamos nos acordar e trilhar o Caminho, abandonando as ilusões e as distrações.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)





Fonte da Gravura:
https://pixabay.com/pt/alquimia-astrologia-caduceu-gr%C3%A9cia-2029573/

TRANSMUTAR CONHECIMENTO EM SABEDORIA


Sabedoria: a síntese do amor e conhecimento. (Divaldo Pereira Franco)

Ser sábio é não fazer do mundo um fim, quando ele não é senão um meio. (Pietro Ubaldi)

O conhecimento reside em cabeças com pensamentos alheios. A sabedoria em mentes que refletem por si mesmas. (Helena Petrovna Blavatsky)

A verdadeira sabedoria não apenas abrange a maneira de pensar e de agir da pessoa, mas também preocupa-se com as relações entre pessoas e com o ordenamento da sociedade. (N. Sri Ram)

Evita, domina, foge de tudo o que não for o bem! Isso desagradará aos insensatos, porém agradará aos sábios. (Dhamapada – Buda)

Da mesma forma que a rocha não é abalada pela tempestade, o sábio se mantém imperturbável diante das censuras, ou dos elogios. (Dhamapada - Buda)

Em qualquer circunstância, o sábio não emprega palavras fúteis, nem se deixa levar pelo desejo; a dor e a alegria não o alteram. (Dhamapada – Buda)

Informações possuem pouco valor se não vivermos o que se entende ser correto. O conhecimento genuíno fundamenta-se na vivência e na consciência plena, o que resulta na sabedoria.

A sabedoria é a expressão pura do conhecimento direto da realidade. Emerge do interior do ser à medida que a consciência se expande e o conhecimento se torna vivenciado. A sabedoria está além da erudição, pois esta se constitui de informações geralmente teóricas.

A sabedoria fala tanto pelo silêncio quanto pela palavra e é transformadora e infinita, manifestando-se em graus de aprofundamento.

É fruto da união consciente da personalidade (nosso eu atual) com a alma (o "eu" superior permanente), e estimulada pelo amor à verdade.

O conhecimento pode apenas condicionar as pessoas mal preparadas para uma vida útil, mas sem objetivo. O condicionamento torna-se nefasto quando é visto apenas como posse, um fim e não como um caminho, um meio. Ao contrário, a sabedoria é liberdade e objetivo pleno.

Na realidade, a sabedoria tem como missão não somente a sabedoria em si mesma, mas também a erradicação das causas do sofrimento.

Sabedoria, portanto, é o conhecimento amplificado pelo amor, pela revelação (a herança espiritual da humanidade), pela compaixão e por um propósito elevado e em conformidade com o Plano Divino.





Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)





Fonte da Gravura:
https://pixabay.com/pt/coruja-p%C3%A1ssaro-animal-natureza-1705112/

quarta-feira, 21 de junho de 2017

DESAPAIXONAMENTO - DESPAIXÃO - DESAPEGO


Despaixão ou desapaixonamento é a libertação das paixões, dos desejos e ambições que obscurecem e modificam a mente do ser humano. Leva ao desapego, à indiferença a todas as coisas ou ações do eu pessoal inferior (personalidade, ego).

A tranquilidade e a paz da mente é alcançada a partir de uma atitude desapaixonada em relação ao prazer ou à dor ou às formas de bem ou mal. Desapego em relação a todas as formas que atraem nossos apetites e sentidos, quer possam causar danos ou não. Todas as formas devem ser igualmente transcendidas. O desapego deve substituir a dor e o prazer e é consequência do desapaixonamento ou despaixão.

Levará todas as percepções sensoriais a desempenharem suas reais funções. É a libertação do anseio por todos os objetos do desejo, quer terrenos, quer tradicionais, aqui ou no futuro.

Pela despaixão o aspirante e servidor ameniza os efeitos cármicos resultantes de suas atividades no cotidiano.

É o nosso desejo que nos prende aos três mundos (físico-etérico, astral e mental concreto) e aos seres. "Prender a" é de natureza diferente de "união com". O primeiro está cheio de desejos e provoca obrigações e efeitos; o segundo está livre de desejos; produz a "identificação com" e não provoca efeitos que prendam aos três mundos.

Pelo desapego, as formas de conhecimento com as quais o homem entra em contato pelos sentidos vão perdendo seu domínio. Finalmente chega a ocasião em que ele é finalmente libertado e é mestre de todos os seus sentidos e de todos os contatos sensoriais. Isto não envolve um estado em que os sentidos estejam atrofiados e inutilizados, mas que sejam úteis quando e como o homem o desejar, e ainda por ele utilizados para aumentar sua eficiência no serviço grupal e nos esforços grupais.

Pela prática do desapego e da despaixão, torna-se possível ao homem reorientar-se de modo que a sua atenção não mais seja atraída, subjugada, excitada e iludida pelas exterioridades, pelos conteúdos inconscientes e conscientes e pelo fluxo de imagens mentais, emocionais e instintivas, mas seja retirada e fique sua atenção, no aqui e agora ou presente, dirigida exclusivamente sobre a realidade; por isso o desapego a todas as formas de percepção sensorial, tanto a superior quanto a inferior, deve ser desenvolvido pelos aspirantes e discípulos mundiais.

Despaixão, ainda pode ser dito, é a "indiferença" ao pequeno eu ilusório reencarnante (personalidade, ego, eu inferior). Ou seja, a sabedoria do senso de proporção e realidades das coisas; discernimento e crivo.

A atitude de "não me importo" e a "indiferença" (no sentido esotérico) são métodos rápidos pelos quais se liberta o ser das demandas da personalidade (persona, máscara). São atitudes a serem adotadas, pela personalidade pensante e integrada do discípulo, ao corpo astral, ou seja, ao seu sentir e perceber. Então assume-se a atitude de que nada que produza qualquer reação de dor ou aflição no corpo astral é de importância. Essas reações são sensivelmente reconhecidas, vividas, toleradas, mas não produzem mais limitações porque o enfoque do discípulo é mental e na busca do intucional. Uma longa viagem do instinto à emoção, e da emoção ao mental, e do mental ao intucional.

A partir desse momento e enfoque que o verdadeiro discipulado e serviço à humanidade começa.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)





Fontre da Gravura:
https://pixabay.com/pt/perturbado-ilus%C3%A3o-humor-mulher-1301200/





Leitura recomendada para aprofundar o tema: obras de Alice Bailey, Torkom Saraydarian, Roberto Assagioli, Angela Maria La Sala Bata dentre outros.

ESPIRITISMO BÁSICO (UMA PEQUENA SÍNTESE)


O QUE É

Conjunto de leis e princípios, revelados pelos Espíritos Superiores, contidos nas obras de Allan Kardec que constituem a Codificação Espírita, a saber: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno, A Gênese e outras.

“O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.” (A. Kardec, O que é o Espiritismo, Preâmbulo)

É a realização do conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba de onde vem, para onde vai e o porquê de estar na Terra.



O QUE REVELA

Conceitos novos e mais aprofundados a respeito de Deus, do Universo, dos homens, dos espíritos e das Leis que regem a vida.

O que somos, donde viemos, para onde vamos, qual o objetivo da nossa existência e qual a razão da dor e do sofrimento.



SUA ABRANGÊNCIA

Trazendo conceitos novos sobre o homem e tudo o que o cerca, o espiritismo toca em todas as áreas do conhecimento, das atividades e do comportamento humano, abrindo uma nova era para a regeneração da humanidade.

Pode e deve ser estudado, analisado e praticado em todos os aspectos fundamentais da vida, tais como: científico, filosófico, religioso, ético, moral, educacional, social.



SEUS ENSINOS FUNDAMENTAIS

Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas. É eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, onipresente, soberanamente justo e perfeito.

O universo é criação de Deus. Abrange todos os seres racionais e irracionais, animados e inanimados, materiais e imateriais.

Além do mundo corporal, habitação dos espíritos encarnados, que são os homens, existe o mundo espiritual, habitação dos espíritos desencarnados.

No universo há outros mundos habitados, com seres de diferentes graus de evolução; mais evoluídos e menos evoluídos que os homens.

Todas as leis da natureza são Leis divinas, pois que Deus é o seu autor. Abrangem tanto as leis físicas como as leis morais.

O homem é um espírito encarnado em um corpo material. O perispírito é o corpo semimaterial que une o espírito ao corpo material.

Os espíritos são os seres inteligentes da criação. Constituem o mundo dos espíritos, que preexiste e sobrevive a tudo.

Os espíritos são criados simples e ignorantes. Evoluem, intelectual e moralmente, passando de uma ordem inferior para outra mais elevada, até a perfeição, onde gozam de inalterável felicidade.

Os espíritos preservam sua identidade, antes, durante e depois de cada encarnação.

O espíritos reencarnam tantas vezes quantas forem necessárias ao seu próprio aprimoramento.

Os espíritos evoluem sempre. Em suas múltiplas existências corpóreas podem estacionar, mas nunca regridem. A rapidez do seu progresso intelectual e moral depende dos esforços que façam para chegar à perfeição.

Os espíritos pertencem a diferentes ordens, conforme o grau de perfeição que tenham alcançado: espíritos puros, que atingiram enorme perfeição; bons espíritos, nos quais o desejo do bem é o que predomina; espíritos imperfeitos, caracterizados pela ignorância, pelo desejo do mal e pelas paixões inferiores.

As relações dos espíritos para com os homens são constantes e sempre existiram. Os bons espíritos nos atraem para o bem, sustentam-nos nas provas da vida e nos ajudam a suportá-las com coragem e resignação. Os imperfeitos procuram nos induzir ao erro.

O homem tem o livre-arbítrio para agir, mas responde pelas consequências de suas ações.

A vida futura reserva aos homens penas e gozos compatíveis com o procedimento de respeito ou não à Lei de Deus.



PRÁTICA ESPÍRITA

Toda a prática espírita é gratuita pois, “Dai de graça o que de graça recebestes”.

A prática espírita é realizada com simplicidade, sem nenhum culto exterior, dentro do princípio de que Deus deve ser adorado em espírito e verdade.

O espiritismo não possui sacerdotes e não adota o uso de rituais em suas reuniões.

Não impõe os seus princípios, apenas convida os interessados em conhecê-los.

Não aconselha uma fé cega, mas sim uma fé raciocinada.

A mediunidade, que permite a comunicação dos espíritos com os homens, é uma faculdade que muitas pessoas trazem consigo ao nascer, independentemente da religião ou da diretriz doutrinária de vida que adotem. Assim, ela pode ser praticada, educada e canalizada de diversas maneiras, dependendo das circunstâncias e religião que a vida e necessidade pessoal lhe ofereça.

A prática mediúnica espírita autêntica só é aquela que é exercida com base na ética.

O espiritismo respeita todas as religiões e doutrinas, valoriza todos os esforços para a prática do bem e trabalha pela confraternização e pela paz entre todos os povos e entre todos os homens, independentemente de sua raça, cor, nacionalidade, crença, nível cultural ou social.

Reconhece que “o verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza”.

Recomenda a reforma íntima como um dos principais métodos de autoconhecimento e ferramenta evolutiva.

A prática espírita da reforma íntima faculta a transformação do homem velho, carregado de tendências e erros seculares, no homem novo, atuante no autoconhecimento, ética e progresso evolutivo pessoal e coletivo.




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)
(Pesquisa, síntese e montagem)





Fonte da Gravura:
http://fraterluz.blogspot.com.br/2014/10/o-livre-pensamento-allan-kardec.html

A PSICOLOGIA E A CONSCIÊNCIA GRUPAL NO ENFOQUE ESOTÉRICO


Sendo o esoterismo a ciência da alma das coisas e dos acontecimentos, ou a ciência das essências, pode-se dizer que é um conhecimento que põe ênfase no mundo das energias, ou seja, reconhece que por detrás dos acontecimentos, do mundo dos fenômenos, existe o mundo das energias, das essências.

Uma das definições mais inadequadas de esoterismo é a de que ele diz respeito ao escondido e oculto, ou que envolve uma organização, ou algo que não se tem acesso, ou ainda artes mágicas e rituais ocultos. Ele, na verdade, só está oculto para aqueles que não possuem condições evolutivas e éticas para penetrá-lo em sua energia e essência.

O estudo esotérico quando unido à vivência esotérica revela, a seu tempo, o mundo do propósito e verdadeiro, levando finalmente ao mundo dos significados. O esoterista começa esforçando-se para descobrir a razão das coisas; concentra-se nos problemas dos acontecimentos, eventos, crises e circunstâncias a fim de chegar a compreender o propósito que possam conter para ele. Quando chega alcançar a significação de algum problema específico, usa-o como um convite para penetrar mais profundamente no recém revelado mundo dos significados; aprende, então, a lidar, a incorporar seus pequenos problemas pessoais aos problemas do todo maior. Descobre assim, o mundo dos significados espalhado como uma intrincada rede em todas as atividades e em cada aspecto do mundo fenomenológico.

O esoterismo é, em realidade, o treinamento na habilidade de funcionar livremente no mundo dos significados. Isso envolve uma vida em sintonia com as realidades subjetivas internas.

O esoterismo envolve autoconhecimento e educação no sentido de que aprender é recordar-se. Autoconhecimento é recordação profunda de nossa real natureza.

A psicologia dentro do enfoque cooperativo e com consciência grupal nasce dentro desta visão ou ciência das essências. Pois parte do princípio da unidade fundamental da essência e da unidade das coisas.

A consciência grupal ou consciência da cooperação visa a harmonia do todo, sem competições. Leva a uma ótica verdadeiramente democrática (de todos, pelo todo e para o todo) e psicológica no sentido de uma visão sintética, esotérica e da unidade ou harmonia de tudo o que existe. Consequentemente, leva os homens a um senso de responsabilidade global em todos os sentidos.

Uma nova ordem mundial, sintética, abrangente e global só poderá nascer (e está nascendo atualmente) a partir de uma psicologia cooperativa e de uma consciência grupal, buscando-se no verdadeiro sentido do esoterismo (a ciência das essências) sua inspiração.

A competição, o personalismo, o nacionalismo e tantas outras barreiras já demonstraram sua ineficácia e danos, quer ao indivíduo, quer à sociedade, quer ao planeta.

Portanto, qualquer atividade com uma concepção psicológica esotérica, espiritual, cooperativa e fraterna, superará todos os problemas e desafios com muito mais facilidade. 

Advirá assim, sem dúvida, não só o tão almejado crescimento interior e reforma íntima, porém ainda o crescimento limpo, justo e honesto no campo social, político e econômico.





Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)






Fonte da Gravura:
https://pixabay.com/pt/psicologia-face-di%C3%A1logo-mudo-2001850/

terça-feira, 20 de junho de 2017

O TRANSE MEDIÚNICO SEGUNDO ALEXANDRE AKSAKOF (uma síntese)


1) PERSONISMO (agente alfa)

- A onda inibitória do transe atinge o córtex cerebral;

- Funções clássicas da subconsciência;

- Domínios da psicologia;

- Denominado de “personismo” (A. Aksakof);

- Fenômenos subliminais (F. Myers);

- Automatismo psicológico (P. Janet);

- Funções “alfa”;

- Causa intra mediúnica;

- Fatos esquecidos ou jamais conscientizados afloram à memória (criptomnésia, a memória oculta);

- Aspectos recalcados da personalidade, que se constituem em sistemas mais ou menos autônomos, podem fugazmente assumir o controle do córtex cerebral;

- As áreas corticais, habitualmente excitadas, isto é, que se prendem ao “quotidiano”, são as que prontamente se inibem durante o transe;

- As áreas corticais que estão apagadas, inibidas (fatos esquecidos, recalques) tendem à desinibição.


2) ANIMISMO (agente psi)

- A onda inibitória do transe aprofunda-se no córtex cerebral;

- Finções “psi”;

- Faculdades supranormais da subconsciência (metapsiquistas);

- Animismo (A. Aksakof);

- Indica que existe no homem um sistema não físico, uma alma;

- Domínios da parapsicologia;

- Causa intra mediúnica;

- À medida que se estende e se intensifica a inibição cortical, as estruturas do subcórtex entram em “efervescência”, libertas da ação frenadora do córtex cerebral;

- A personalidade profunda (pólo subcortical) assume o controle da atividade nervosa e evolui com duas direções:

a) O impulso nervoso atinge o córtex, suscitando automatismos motores e sensoriais que resultam nos fenômenos “psi gama” ou mediunidade de expressão cortical (efeitos psíquicos):

- Efeitos Intelectuais (lobos frontais): intuição, psicografia e psicofonia;

- Efeitos Sensoriais (córtex extra frontal): sensitividade, vidência e audiência.

b) O impulso nervoso atinge os centros vegetativos da base do cérebro (hipotálamo) mobilizando recursos celulares protoplasmáticos que se projetam para além do corpo resultando nos fenômenos “psi kapa” ou mediunidade de expressão sub cortical (efeitos físicos):

- Efeitos Físicos / psicocinésia (subcórtex):

- Somatização (fenômenos intra mediúnicos;

- Telecinesia (fenômenos extra mediúnicos);

- Ectoplasmia (materializações e geração de plasma).


3) ESPIRITISMO (agente teta)

- A onda inibitória do transe chega à superfície do subcórtex cerebral;

- Funções “teta”;

- Espiritismo (A. Kardec);

- Causa extra mediúnica;

- A maior parte do encéfalo está “apagado”, permanecendo alguma atividade no subcórtex;

- O psiquismo e o perispírito ficam mais possibilitados ao contato com agentes “psi teta” (desencarnados).





Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)





Fonte da Gravura:
https://pixabay.com/pt/buda-%C3%ADndia-esp%C3%ADrito-ora%C3%A7%C3%A3o-1915589/





Referências e sugestões bibliográficas:

- “Animismo e Espiritismo”, Alexandre Aksakof
- “O Livro dos Médiuns”, Allan Karde
- “Mecanismos da Mediunidade”, André Luiz
- Artigo “Animismo e Espiritismo”, de Sérgio Biagi Gregório

O PODER DA IDEOLOGIA: UM DECRETO POLÍTICO QUE MUDOU A HISTÓRIA


O mundo tem demonstrado, através dos tempos, uma necessidade de criação de mitos relacionados a temas religiosos, dentre outros. A sociedade, praticamente sem se interrogar e questionar sobre a significação dos seus mitos, absorve signos, símbolos e estereótipos durante toda a vida.

Há casos de mitos que existem sem que possamos ter noção de sua origem, são atemporais, pois sua formação não é intencional, ou seja, nunca houve uma intenção inicial de criá-los, sendo assim, a sociedade, o tempo e o inconsciente coletivo os responsáveis pelo processo natural e gradativo da criação. Entretanto, há casos de mitos programados antecipadamente. É a mitificação artificial de coisas e pessoas com finalidades de conquistar a sociedade para interesses econômicos, políticos, sociais e religiosos.

Mas, o que é um mito? Muitas definições são encontradas. Porém, algumas são coincidentes e nos revelam ser uma tentativa de explicação de acontecimentos considerados sobrenaturais ou naturais que escapam da compreensão do homem. Surgem, então, as lendas, a poética, a fábula etc., que pertencem à sabedoria da humanidade através do tempo. São preservadas de geração em geração pelo inconsciente coletivo, sob a forma de arquétipos, símbolos e figuras. É através deles que são transmitidas as mensagens essenciais.

Por isso é muito difícil, com neutralidade, estudar e analisar o que representam os mitos. E quando falamos em mitos, devemos ter a clara distinção de que há, por um lado, mitos atemporais, que nos projetam a um universo profundo, simbólico e de arquétipos, com fins pedagógicos e cheios de lições permanentes para todas as épocas e povos, como por exemplo os mitos simbólicos do “dilúvio”, de "os doze trabalhos/provas de Hércules”, da “caverna” de Platão, dos “contos de fadas” (“era uma vez...”), dos “orixás”, dos mitos de “criação do mundo” (“no princípio...”) e de tantos outros mitos que são as bases de todas as Escrituras Sagradas e de todas as tradições (Antigo e Novo Testamentos, Alcorão, Bhavagad Gita, Vedas etc.). Por outro lado, há mitos programados, a mitificação artificial de coisas e pessoas. E aqui reside o perigo, o engano, a hipnose coletiva. São os mitos sociais, políticos, religiosos e econômicos no sentido perverso da ideologia de domínio e exploração.

É, portanto, nesse sentido que os mitos se tornam ou benéficos ou maléficos. Ou seja, enquanto uns falam à nossa alma nos ensinando a transcender problemas, lidar com nossos problemas interiores, existenciais e entender sobre nossa origem, missão e destino, outros nos levam a uma inércia mental, a uma alegria ilusória, a uma vida sem sentido, a uma alienação cultural, política, a uma “militância” subjugada a interesses egoístas de inúmeras ideologias, a ideias preconceituosas, a mitos raciais, a dogmas religiosos, econômicos e científicos indiscutíveis, a ídolos objetivos e subjetivos (artistas, super-heróis, políticos, modo de vestir-se, novelas, comportamento, desportistas etc.), a patriotismos desmedidos e a tantos outros mitos que nos afastam da realidade e do verdadeiro sentido de uma vida plena, consciente e de crescimento.

A título de exemplo, trarei à tona três, dos milhares de exemplos de mitificação artificial e programados. O primeiro deles não chega a representar um grande problema, mas nos exemplifica claramente como absorvemos detalhes que se tornam “peças” fundamentais e “inseparáveis” de nossas crenças e costumes. O segundo já toma proporções maiores porque envolve uma ideologia, uma crença, uma fonte econômica e uma subjugação alienante e idólatra. O terceiro exemplo, que é o ponto fundamental deste artigo, nos fala de um “decreto político que mudou a história”.

Vamos ao primeiro exemplo: “O Gato Ritual - complicando o que é simples” (conto zen budista). “Quando um mestre espiritual e seus discípulos começavam a meditação do anoitecer, um gato que vivia no monastério fazia tanto barulho que os distraía. Então, o professor ordenou que o gato fosse amordaçado durante a prática noturna. Anos depois, quando o mestre morreu, o gato continuou a ser amarrado durante a meditação. E quando o gato morreu, outro gato foi trazido para o monastério e amarrado. Séculos depois, quando todos os fatos do evento estavam perdidos no passado, praticantes intelectuais que estudavam os ensinamentos daquele mestre espiritual escreveram longos tratados escolásticos e teológicos sobre a significância de se amordaçar um gato durante a prática da meditação...”.

Como segundo exemplo, temos a crença na padroeira do Brasil: Nossa Senhora Aparecida. Poucos questionam, analisam e enxergam o simples fato de que algo, uma estátua em questão, em algum momento tenha sido deixado cair na água, por acidente, ou tenha sido levado por alguma correnteza durante uma chuva, e que quando foi achada e resgatada das águas pelos pescadores, tenha sido apenas uma das possibilidades de resgate acidental daquelas águas. Outra possibilidade poderia ter sido a de até hoje estar submersa. Porém, a mentalidade da época, não muito diferente da de hoje, logo partiu para a ideia do milagre, aviso, aparição. A “fé” cega e a necessidade de ídolos que lhes protegessem no dia a dia levou, por um lado, o povo da época a construir mais um objeto de culto. Por outro lado, estava a Igreja, sempre pronta a incorporar em seus dogmas qualquer fato, por mais absurdo que possa ser, que lhe rendesse fiéis e lucro. Estava assim formado, no Brasil, mais um culto que tomaria proporções gigantescas. Culto este com uma sólida estrutura política, social e digna de um feriado nacional. Um verdadeiro paraíso para “os vendilhões do templo”, para a Igreja. Eis um mito, um culto forjado, que encontrou terreno fértil no senso comum e sofrido da população. Não devemos desmerecer a maneira de expressão e pensamento do homem movido pelo senso comum, mas não podemos também permanecer sem uma superação, rumo a uma abordagem crítica e coerente. O erro está na acomodação no papel de vítima e de dominado.

No terceiro exemplo, temos as proporções maiores da mitificação artificial de pessoas com finalidades de conquistar a sociedade para interesses econômicos, políticos, sociais e religiosos. Trata-se de um tema polêmico e que está contido profundamente no modo de vida e crenças do Ocidente. Quer trate-se de algo que esteja no “inconsciente coletivo”, “memória genética”, “vida após vida”, ou de tudo um pouco, o fato é que teve um começo, um auge e agora está havendo um profundo questionamento do que foi criado em torno de um personagem, um grande homem, um espírito evoluído, chamado Jesus, pelos ocidentais.

Sabe-se, historicamente, que nos dias de opressão romana o povo judeu estava nos limites de sua força e tolerância. Uma ideia e desejo de liberdade e “salvação” já percorria o coração e a mente de cada judeu. A ideia começou a concretizar-se em doutrinas e movimentos (essênios, nazarenos etc.). Os grupos estavam sendo organizados em “fraternidades” (chevrot, em hebraico), também conhecidos como “grupo de servidores” (chaburah, em hebraico). Os membros eram chamados de “companheiros”, “servidores”, “membros”, (chaverim, em hebraico). Tinham como ideal a pobreza, a abstinência, os banhos simbólicos de purificação. Enfim, uma preparação à “redenção” sempre iminente. Eis a gênese, o solo fértil para um outro grupo que estava para nascer.

Jesus, um espírito esclarecido no judaísmo e na cabala (iniciado por José de Arimatéia), também se referia à vinda de um “messias”. Alertava o povo sobre o poder do amor, sobre as injustiças sociais, sobre o erro daqueles que tratavam a religião como comércio, sobre a hipocrisia e tantas outras coisas. E sabemos do trágico fim que estas ideias lhe custou.

Mas, até então, os pequenos grupos simplesmente compartilhavam das ideias e ouviam a Jesus. Porém, um pouco mais adiante, já consideravam-se como seus discípulos, mas ainda judeus. Tais grupos continuaram após a sua morte e foram tomando proporções maiores. Passaram a crer, seus companheiros e discípulos, que o próprio mestre havia cumprido o destino de “messias”. Já surgia a crença que ele teria “ressucitado dos mortos” e retornaria do paraíso como governante de uma nova era final. Não é necessário citar todas as crenças e doutrinas que se fermentavam em torno do nosso querido irmão Jesus, porque já é de conhecimento de todos. Mas é claro que Jesus nunca andou em meio do povo proclamando-se messias, ou pedindo que o seguissem porque era um rei. Ele apenas era um homem consciente, conhecedor do lado espiritual mais profundo, um conhecedor do lado esotérico da vida e do poder do amor e da justiça. Um ser além do seu tempo em visão e evolução.

O tempo passava, os grupos e crenças em torno de Jesus cresciam. As reuniões começavam a se tornar menos públicas em vários lugares porque já estavam a despertar a atenção de líderes religiosos e políticos. Tudo isso ainda acontecendo dentro do terreno do judaísmo. Mas um dia, o personagem chamado Paulo de Tarso, abriu as portas aos não-judeus, e os grupos, a partir de então, já não se geririam totalmente pelas leis judaicas. Começava uma espécie de “cristianismo primitivo”. Cristianismo porque tem origem no nome de origem grega, cristo, o “salvador”, o “ungido” etc. Aqui começa a sobreposição, aos poucos, dos mitos judaicos, gregos, romanos, egípcios, persas e outros nos novos núcleos em torno de Jesus. Cada vez mais as palavras de um homem tomavam formas e crenças diversas. Não me refiro aqui que as outras crenças, mistérios e mitos sejam inválidos; refiro-me somente à sobreposição que estava havendo.

Tudo isso, historicamente se sabe, não estava passando desapercebido pelos romanos. Estes percebiam o forte crescimento desse “movimento popular”. Estava, portanto, prestes a começar o conflito entre as comunidades que se expandiam e o poder do imperador romano. Em Roma já estava configurado o dilema, e era preciso escolher: o imperador ou Jesus. A princípio temidos, depois odiados, os novos “cristãos” iam se alastrando pelo Império. Entretanto, como a seita que crescia era aberta a todas as raças, a partir de Paulo, adquiria um caráter mais universalista, e isso começou a agradar ao Império Romano mais adiante. O culto ao imperador estava já prestes a tomar outro rumo. Mas antes, muito sofrimento e perseguição era a realidade vivida pelos chamados cristãos. E após a perseguição de vários imperadores romanos, que culminou com Dioclesiano, temos no Imperador Constantino o personagem que transformou o cristianismo em religião oficial do Império Romano.

Assim, temos em um decreto político, um rumo histórico-social que quase todos conhecem, mas não questionam. E toma, em resumo, após a oficialização pelo Imperador Constantino, o caráter de disputas pelo poder político e econômico. Ou seja, Concílios desenham, então, o modo de vida da humanidade cristã que a influencia até hoje: Jesus se torna Deus, Deus se divide em 3, formando a Santíssima Trindade; nasce a figura do demônio; a Igreja se torna a única intermediária entre Deus e o homem; adquire justificativas santas para silenciar os inimigos; renascimento se transforma em ressurreição (também por decreto!); e assim estava se formando uma teologia onde tudo se adequava ao perfil da Igreja (aos interesses). Mais adiante, o Protestantismo faz a reforma, mas sai da mesma raiz e continua nas mesmas disputas e interesses ideológicos.

E o que vemos hoje? A religião, como a política, atualmente, tornou-se um palco, um circo, um negócio muito lucrativo. Hoje já nem se fala tanto da Igreja Católica, mestra antiga no que se refere à sede de poder, ouro, corrupção, crime e falsidade, mas salta aos nossos olhos o "evangelismo", subdividindo-se continuamente em diversas denominações “evangélicas”, “pentecostais”, “neo pentecostais”, às centenas, verdadeiras multinacionais, gerenciadas por estelionatários e enganadores que assaltam a multidões sofridas e sem discernimento. Eis o porquê de C. Marx ter dito que a religião é o opium do povo. Imaginem o que Marx diria atualmente!

Mas a verdadeira educação está, aos poucos, mostrando a sua face. Mais cedo ou mais tarde, as Leis Divinas estarão acima das leis dos homens e dos "intermediários" e "sábios” do divino. A evolução não pára. A Verdade sempre será a Verdade, mesmo que pervertida pelos homens. O Divino está acima dos interesses humanos, interesses disfarçados de leis, pregadores, padres, pastores, evangelistas, missionários, dirigentes espíritas “donos da verdade”, monges, "devotos", "milagres" e de "iluminados". Enfim, acima de interesses de todas as religiões e seus ministros.

Atualmente, há várias correntes em torno do ideal que ficou conhecido como cristianismo: a tradicional católica romana, as ortodoxas, as protestantes (centenas), as judaico messiânicas, o espiritismo e os esoteristas cristãos.

As católicas, ortodoxas e protestantes a história já tem demonstrado sua trajetória e interesses até os nossos dias. Só uma cegueira hipnótica, a tradição cega, o inconsciente coletivo, ou vida após vida dentro dessas tradições, forjadas no medo e tortura, poderiam explicar a razão de uma continuidade da humanidade atrelada, ou melhor, acomodada em  suas doutrinas e crenças.

As judaico messiânicas deram um grande passo. Um retorno às origens é salutar. O problema, entretanto, continua quanto ao “ideal messiânico” ou de “messias”. É a conhecida tendência psicológica de materializar o espiritual. Ou seja, “tomar a letra que mata pelo espírito que vivifica”. O ideal de um messias que já veio também foi cristalizado num homem (Jesus) e mais uma vez a letra sufocou o espírito da mensagem. Esquecemos que o ideal messiânico, que o próprio Jesus falava, é individual. Cada um o receberá no seu coração. Não é “alguém” o ideal, mas um “estado crístico” que cada um chegará por evolução. Essa é a “redenção”. A era messiânica sempre esteve, está  e estará aberta a cada um que buscar dentro de si o amor, as corretas relações humanas, a reforma íntima; é um novo sentido de vida, uma “conversão”, um redescobrir-se a si mesmo.

No espiritismo temos um caso interessante. Ele é, em sua essência, uma ciência e uma filosofia com consequências morais e éticas, não religiosas como o entendemos por religião. Allan Kardec, como ocidental, referia-se às palavras de Jesus como sendo bons conselhos e ideais maravilhosos, dignos de serem seguidos, mas nunca codificou um cristianismo espírita, como o querem/transformaram no Brasil. O “igrejismo” espírita começou, em terras brasileiras, com Bezerra de Menezes e Francisco Cândido Xavier, principalmente. E o povo, sem bases culturais e conhecimento do espiritismo clássico, filosófico e científico, acostumado e impregnado do cristianismo vigente, logo adotou a postura cristã. Por isso ouvimos no meio espírita expressões como: “Jesus é o único modelo e guia”; “espiritismo sem Jesus não é espiritismo”; “não compreendo um espiritismo sem Jesus”; e assim temos centenas de expressões similares. Provavelmente tudo isso seja efeito do que já me referi acima, ou seja, inconsciente coletivo, memória genética, vida após vida, arquétipos, símbolos etc., que perduram na mente dos espíritas encarnados e desencarnados, sendo que muitos destes últimos foram clérigos católicos. No espiritismo também há uma confusão entre Jesus e o “estado crístico” a ser atingido. Lógico, depois de praticamente dois mil anos de medo, tortura e condicionamentos, torna-se difícil enxergar mais nitidamente os fatos e muitas coisas temperam o espiritismo, inconscientemente. E pesa-se ainda o fato de que a grande maioria dos espíritas é de origem católica e protestante.

Temos ainda os “esoteristas cristãos”. São pertencentes a organizações, ordens, fraternidades e escolas espirituais que tem suas origens mesmo antes da época de Jesus. São cristãos no verdadeiro sentido da palavra, pois têm a “cristo”, a “essência crística” como objetivo de vida e doutrina. Consideram que Jesus atingiu esse estado e que falava disso aos seus contemporâneos, incentivando-os a buscar o amor, o reino, a sabedoria, o arrependimento etc. Algumas correntes de "esoteristas cristãos" também não ficaram imunes à influência do "cristianismo tradicional" e adotaram uma postura mais ortodoxa referindo-se ao "mestre dos mestres".

Assim, rapidamente, dentro dos parâmetros de um pequeno artigo, busquei evidenciar o poder da mitificação que tornou um homem em um fato político-social, e a construção, cada um a seu modo e interesses, de toda  uma história que custou milhares de vidas, guerras “santas”, discussões teológicas, ideologias e desunião. Uma verdadeira aspiração de uma época que se personificou num homem e que mais tarde foi transformada em um decreto político que veio a influenciar toda a história e trajetória ocidental.

Finalizando, um pequeno conto indiano exemplifica, “mutatis mutandis”, o que tentei expôr acima. Um homem desejava livrar-se de todas as formas de ritos religiosos, deixando apenas a essência da direta experiência da Verdade. Ele atraiu discípulos que costumavam se reunir a seu redor toda semana, quando ele falava a todos sobre seus princípios. Após algum tempo, eles começaram a se reunir antes do mestre aparecer, porque eles gostavam de estar em grupo e cantar juntos. Eventualmente foi construída uma casa para as reuniões, com uma sala especial para o mestre. Após sua morte, tornou-se uma prática entre seus seguidores fazer uma reverência respeitosa à sala vazia, antes de se entrar no salão. Em uma mesa especial a imagem do mestre era mostrada em uma moldura, e as pessoas deixavam lá flores e incenso, em respeito ao mestre. Em poucos anos uma religião tinha crescido em torno daquele homem, que em vida não praticava nada disso, e que, ao contrário, sempre disse aos seus seguidores que ficar preso a estas práticas levava frequentemente a pessoa a se iludir no caminho da Verdade. (desconheço o autor)




Prof. Hermes Edgar Machado Junior (Issarrar Ben Kanaan)





Fonte da Gravura:
https://pixabay.com/pt/religi%C3%A3o-jesus-batismo-f%C3%A9-peixe-1976790/




Algumas referências e sugestões bibliográficas:

- “Quatro Milênios de Existência Judaica”, Fritz Pinkuss, Revista de História (USP)
- “Jesus: uma biografia revolucionária”, John Dominic Crossan, Ed. Imago
- “O Dogma de Cristo”, Erich Fromm, Ed. Zahar
- “Origem e Evolução da Ideologia”, Oto Alcides Ohlweiler, Ed. Universidade
- “Sociologia Geral”, Eva Maria Lakatos, Ed. Atlas
- “Quem Matou Jesus? As Raízes do Anti-Semitismo”, John Dominic Crossan, Ed. Imago
- “Saber Cuidar”, Leonardo Boff, Ed. Vozes
- “A Psicanálise dos Contos de Fada”, Dr. Bruno Bettelheim, Ed. Paz e Terra
- “Revisão do Cristianismo”, J. Herculano Pires, Ed. Paidéia
- “Filosofando: introdução à Filosofia”, Maria Lucia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires   Martins, Ed. Moderna
- “La Evolución del Pensamiento Judío”, Jacob Bernard Agus, Ed. Paidós
- “Heresia: o jogo de poder das seitas cristãs nos primeiros séculos depois de Cristo”, Joan O'Grady, Ed. Mercúrio